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O evangelho que não é evangelho: prosperidade, sofrimento e a cruz de Cristo

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27.08.2026

O dito “evangelho da prosperidade” apresenta-se como uma mensagem de esperança. Promete saúde, riqueza e vitória àqueles que “semeiam”, repetem determinadas fórmulas espirituais ou demonstram fé suficiente. Sua linguagem é cristã e seus pregadores falam constantemente de Deus, fé, milagres e bênçãos. Entretanto, por trás dessa aparência encontra-se um sistema religioso que distorce o caráter de Deus, manipula o sofrimento humano e substitui a graça pela técnica, a cruz pelo desempenho e Cristo pelos desejos do indivíduo.

Por isso, emprego com desconforto termos como “teologia” e “evangelho” para descrever essa mensagem. Em sua estrutura e finalidade, ela se aproxima de outras formas históricas de engano religioso, como o antigo gnosticismo. Falta-lhe verdadeira submissão às Escrituras e coerência doutrinária. Muito menos existe verdadeira “boa notícia” nesse ensino. Chamar esse conjunto de crenças de “evangelho” corre o risco de conceder a uma heresia uma legitimidade que ela não possui.

Os testemunhos de Sean DeMars, em A “Gospel” that Almost Killed Me”; Kate Bowler, em Death, the Prosperity Gospel and Me; e Costi W. Hinn, em Deus, ganância e o evangelho (da prosperidade), permitem observar o fenômeno de ângulos complementares. DeMars mostra o que essa mensagem faz com um convertido vulnerável; Bowler revela sua incapacidade de enfrentar o sofrimento e a morte; Hinn expõe a maquinaria religiosa e financeira que a sustenta. Juntos, revelam um sistema teologicamente falso, pastoralmente destrutivo, psicologicamente abusivo e economicamente explorador.

Das origens pentecostais à radicalização neopentecostal

Para compreender como essa mensagem alcançou tamanha influência, especialmente no Brasil e no Sul Global, é necessário situá-la no desenvolvimento histórico do pentecostalismo.

O movimento pentecostal surgiu no início do século 20 a partir das igrejas metodistas de santidade, que enfatizavam a perfeição cristã e a “segunda bênção”. No Brasil, chegou especialmente com as Assembleias de Deus, em 1911. Entre seus elementos característicos estavam o batismo no Espírito Santo posterior à conversão, os dons miraculosos e uma forma bastante centralizada de liderança.

O dito “evangelho da prosperidade” distorce o caráter de Deus, manipula o sofrimento humano e substitui a graça pela técnica, a cruz pelo desempenho e Cristo pelos desejos do indivíduo

O dito “evangelho da prosperidade” distorce o caráter de Deus, manipula o sofrimento humano e substitui a graça pela técnica, a cruz pelo desempenho e Cristo pelos desejos do indivíduo

Na década de 1950, surgiu um segundo grupo: os pentecostais de cura divina, representados pela Igreja do Evangelho Quadrangular, Brasil para Cristo, Nova Vida e Deus é Amor. Essas igrejas ampliaram a ênfase sobre curas, exorcismos e rituais de libertação, adotando formas mais emocionais de culto e estilos musicais populares.

A partir da década de 1960, o movimento carismático espalhou-se pelas denominações históricas – batistas, presbiterianos, metodistas e até católicos. Diferentemente dos pentecostais clássicos, esses grupos permaneceram em suas denominações, introduzindo a crença na continuidade dos dons sobrenaturais e no batismo no Espírito Santo. Em muitos casos, essa renovação abriu espaço para uma espiritualidade mais subjetiva, na qual experiências, impressões interiores e supostas revelações passaram a reivindicar autoridade sem critérios bíblicos suficientemente claros. A experiência passou, não raramente, a determinar a interpretação da Escritura, favorecendo também uma autoridade excessiva de líderes carismáticos.

Uma quarta configuração apareceu no fim dos anos 1970 e início dos 1980: o neopentecostalismo. Igrejas como a Universal do Reino de Deus (1977) e a Internacional da Graça de Deus (1980) radicalizaram elementos já presentes na tradição pentecostal. Organizadas em torno dos meios de comunicação de massa, rituais de caráter mágico, exorcismos constantes e uma espiritualidade voltada para o espetáculo, forneceram terreno fértil para a expansão do evangelho da prosperidade.

Nesse contexto, a prosperidade tornou-se central: riqueza passou a indicar fé;........

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