Ceuta e a nova gramática da coerção
Habitualmente, tendemos a analisar cada crise migratória de forma isolada e circunscrita. Um dia é Lampedusa. No outro, Lesbos. Agora, Ceuta. Amanhã será noutro sítio qualquer. Mudam os protagonistas, repetem-se as imagens, sucedem-se as declarações políticas, mas raramente se discute aquilo que verdadeiramente mudou: a natureza do poder e a forma como este é exercido.
Durante grande parte do século XX, os Estados competiram sobretudo através da força militar, da capacidade industrial ou da dissuasão nuclear. No século XXI, continuam a fazê-lo, mas acrescentaram uma nova forma de atuação assente na exploração sistemática das vulnerabilidades do adversário, evitando sempre que possível o confronto militar.
É esta a lógica que estrutura a ação na denominada ‘grey zone’, o espaço entre a paz e a guerra, no qual os atores estatais e não estatais se envolvem em competição.
O objetivo não passa por derrotar militarmente o adversário, mas antes condicionar as suas decisões políticas, aumentar os custos da sua ação, alimentar divisões internas e reduzir a sua liberdade estratégica, recorrendo a instrumentos que permanecem abaixo do limiar do conflito armado. É neste contexto que importa olhar para o que aconteceu em Ceuta, num momento diplomaticamente sensível, em que a gestão da migração constitui um dos principais ativos estratégicos de Marrocos na relação bilateral com Espanha e, por extensão, com a União Europeia.
A Europa encontra-se hoje estruturalmente dependente da cooperação de um conjunto de países terceiros para garantir o controlo efetivo das suas fronteiras externas e essa dependência........
