menu_open Columnists
We use cookies to provide some features and experiences in QOSHE

More information  .  Close

A guerra que estamos a perder, e como a podemos ganhar de outra forma

24 0
26.03.2026

Todos os anos, o Estado português gasta milhões a cortar árvores. Não árvores doentes. Não árvores em risco de queda. Árvores saudáveis, a crescer vigorosamente em terrenos que mais ninguém quer.

Cortam-se, empilham-se, queimam-se. Às vezes aplicam-se herbicidas para garantir que não voltam. A operação repete-se no ano seguinte, porque as árvores; acácias,eucaliptos, ailanthus; voltam sempre. Chamamos a isto «controlo de invasoras». Gastámos mais de 20 milhões de euros entre 2018 e 2021 nesta guerra. Em 2023, mais 1,5 milhões. Os resultados? As invasoras continuam a expandir-se. E nós continuamos a queimar biomassa perfeitamente utilizável enquanto importamos lenha e pellets para aquecer casas.

Há qualquer coisa de profundamente irracional nisto. Portugal tem um mercado de lenha que se aproxima dos mil milhões de euros anuais.Centenas de milhares de famílias dependem de biomassa para aquecimento; e esse número está a crescer, à medida que os preços da eletricidade e do gás disparam. A procura excede a oferta sustentável. Cortamos sobreiros e azinheiras mais depressa do que regeneram. Importamos madeira de países com florestas em melhor estado que as nossas.

Ao mesmo tempo, temos milhões de toneladas de biomassa a crescer em terrenos abandonados, estradas florestais, taludes, bermas. Biomassa que classificamos como «problema» e queimamos sem aproveitamento. Biomassa que, se não a cortarmos nós, arde sozinha no verão seguinte; e aí já não aquece ninguém, apenas destrói.

A forma como falamos de espécies «invasoras» revela muito sobre a nossa relação com a paisagem. Usamos vocabulário militar: invasão, combate, erradicação, controlo. As plantas tornam-se inimigas. A gestão torna-se guerra. Mas as acácias e os eucaliptos não invadiram Portugal por acaso. Nós plantámo-los. O eucalipto foi promovido pelo Estado durante décadas como solução para terrenos........

© Expresso