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E se Ben-Gvir já ganhou?

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O que transforma uma sociedade não é a existência das suas margens, mas o momento em que as margens deixam de parecer estranhas ao centro. Itamar Ben-Gvir é ministro da Segurança Nacional de Israel, supervisiona a polícia e o sistema prisional, participa no gabinete de segurança e é uma das figuras que sustentam a maioria de Benjamin Netanyahu. Quando pede a morte de “30 a 40” palestinianos todas as noites e diz que há pessoas “que não são sequer pessoas”, o problema já não está apenas nas palavras. Está no lugar que essas palavras ocupam.

O American Jewish Committee condenou as declarações, acrescentando que elas “não refletem a política do Estado de Israel”. A ressalva é compreensível para quem procura preservar uma ideia de Israel diferente daquela que hoje emerge. Mas Ben-Gvir, um apóstolo do kahanismo, faz parte do Governo israelita. Pode não representar Israel inteiro, como nenhum ministro o faz, mas representa uma corrente que deixou de estar confinada às margens.

Durante algum tempo, foi possível tratar a extrema-direita israelita como uma força incómoda que Netanyahu precisava de manter por perto para sobreviver. Essa distância tornou-se cada vez mais difícil de encontrar. O Likud aproximou-se de posições que antes pertenciam sobretudo a Ben-Gvir e Bezalel Smotrich, enquanto dirigentes ligados ao movimento dos colonos ganharam espaço dentro do próprio partido. A direita tradicional e a direita radical continuam a ter diferenças, mas a fronteira que as separava tornou-se muito menos nítida.

Israel Katz ajuda a perceber a mudança. O ministro da Defesa defende uma presença militar prolongada em Gaza, na Cisjordânia e no sul do Líbano, apoia a expansão dos colonatos e ordenou novas operações militares na Cisjordânia. A transferência para a polícia israelita de competências sobre os colonos aproxima a administração da Cisjordânia de uma realidade em que a ocupação deixa progressivamente de ser tratada como provisória. A política de detenção administrativa torna a distinção ainda mais difícil: Katz anunciou o cancelamento de ordens contra colonos judeus, enquanto o recurso à mesma ferramenta se intensificava contra suspeitos árabes.

Ben-Gvir saudou a decisão e pediu mais competências para o seu ministério. Também chamou “anarquistas” a alguns dos seus adversários, uma designação usada pelas forças de segurança para ativistas de esquerda que acompanham comunidades palestinianas na Cisjordânia. Cada uma destas decisões seria, por si só, suficiente para levantar questões graves sobre os limites do poder e da segurança. O problema torna-se maior quando demasiadas decisões começam a apontar na mesma direção. Quando a ocupação deixa de ser administrada como provisória, a distinção entre uma situação temporária e uma realidade permanente começa a desaparecer.

Enquanto se discutiam as declarações de Ben-Gvir sobre Gaza, o Governo avançava também com........

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