Quatro aplausos e um funeral
Um dos factos mais surpreendentes da Conferência de Segurança de Munique, na semana passada, foi o aplauso em pé no final da intervenção de Marc Rubio, o Secretário de Estado Norte Americano. Um ano depois da intervenção de JD Vance, há quatro explicações possíveis para o súbito entusiasmo da plateia. Seja ela qual for, o aplauso esconde o enterro de uma época.
Uma explicação possível é a plateia não ter ouvido o orador. É verdade que o chefe da diplomacia americana assinalou umas coisas aparentemente simpáticas para os europeus, como dizer que a América é filha da Europa e que estamos juntos. Mas esses detalhes não escondem o essencial: uma reedição do fundamental do discurso de Vance, mas sem os insultos. Uma visão imperial (saudosista do expansionismo imperial europeu!) da América, a recusa de uma ordem internacional assente em regras ou valores (mesmo que apenas vagamente), o ataque aos imigrantes em geral e a repetição da tese da degradação da Europa.
A outra explicação possível é a sala ter apenas ouvido o que queria. Ter gostado tanto de algumas coisas simpáticas que Rubio disse, que se entusiasmou, desconsiderando o que não devia ter gostado.
Uma outra hipótese, mais estratégica, é a plateia ter querido enviar uma mensagem a Washington: mesmo que seja para dizerem o que agora dizem, mandem-nos alguém que nos saiba falar com voz doce e bons modos. Seria um sinal de que a Europa tinha percebido o estado das relações entre a Europa e a América e preferia que se orientassem por algum cinismo que torne viável a manutenção de algum estado de coisas aparente, enquanto na realidade europeus e americanos se afastam e o lado de cá do Atlântico procura refazer a sua vida, como nos divórcios. Seria a explicação adulta.
Também pode ser que tenha sido apenas um aplauso nervoso.
Seja qual for a verdadeira explicação, há outros sinais mais importantes. Uns dias antes, em Biesen, os líderes europeus reuniram-se numa espécie de retiro para pensar na reorientação estratégica da União Europeia. As conclusões não são novas, mas a determinação parece ser renovada. Remover barreiras ao mercado interno, como pediram Draghi e Letta nos seus relatórios, criar condições para que as poupanças privadas europeias financiem investimento europeu (a agenda do portfolio da comissária Maria Luís Albuquerque, um dos cruciais neste mandato), rever as causas do elevado custo energético e ambiental das indústrias europeias (o que pode significar voltar atrás em algumas medidas da agenda verde do anterior mandato), e a disposição para geometrias variáveis de cooperação e integração europeia. Além de dúvidas sobre quão proteccionista será esta Europa: muito, pedem os franceses, ou pouco como preferem os alemães.
Dias depois, em Munique, Merz falou no impensável até há poucos anos: cooperação franco-alemã em matéria de protecção nuclear, para permitir aos europeus não depender apenas, ou quase, dos americanos para fazer dissuasão nuclear. E, depois de Carney ter assinalado a ruptura na ordem internacional, o chanceler alemão declarou que a ruptura já tinha acontecido e que "se abriu uma profunda divisão entre a Europa e os Estados Unidos". Mas não afastou definitivamente os dois lados do Atlântico. “Na era da rivalidade entre grandes potências, nem mesmo os Estados Unidos serão poderosos o suficiente para agir sozinhos. Caros amigos, fazer parte da NATO não é apenas a vantagem competitiva da Europa. É também a vantagem competitiva dos Estados Unidos. (...) Vamos reparar e reviver a confiança transatlântica juntos", acrescentou. Sem acreditar demasiado, dir-se-ia, considerando o que tinha dito antes.
Mais do que o aplauso, portanto, é o resto que deve contar. Os líderes europeus parecem estar a fazer todos (excluindo Hungria e Eslováquia, pelo menos, mas incluindo Reino Unido, Noruega e até aos canadianos) a mesma leitura da realidade. Daqui ainda não retiraram todos as mesmas consequências, nem estão de acordo quanto a todas as soluções. Mas há um caminho que está a ser feito, mais depressa do que se imaginaria provável.
Trump está, de facto, a reforçar a opção pela autonomia estratégica europeia, de que tanto fala Macron. O Presidente dos Estados Unidos da América está a tornar a Europa menos atlântica, comos os franceses sempre quiseram que fosse. O que nunca pareceu ideal. Até agora. E mais como os alemães preferem que seja: liderada pelos maiores. O que também não costumava parecer uma boa ideia. Num e noutro caso, a realidade está a impor a transformação.
