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Europeístas de manhã, nacionalistas à tarde

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tuesday

Os europeus querem muito da UE, mas não querem que se meta na seu dia-a-dia. Querem que a Europa tenha poder no mundo, mas não querem que tenha poder nas suas vidas. Querem que seja ágil e rápida a decidir, mas não querem um poder central que se sobreponha aos Estados e aos governos. Gostavam que fosse rápida e eficaz a decidir, mas não querem o centralismo chinês. Às vezes gostam da ideia de um presidente da Europa, mas não querem dispensar os governos nacionais. E bem.

Há quem ache que a solução para esta bipolaridade passa por escolher um dos lados. Federar ou nacionalizar. Unir ou dividir. Na verdade, nem uma coisa nem outra é a solução.

A Europa, pelo menos nas próximas décadas, não será federal. E quanto mais sérios e existenciais forem os problemas europeus, menos os estados abdicarão da soberania. A política externa, a defesa, os impostos e a competitividade fiscal, a nacionalidade e a imigração. Nada disto, que hoje são dos principais temas europeus, será delegado por um governo nos outros todos. Menos ainda em apenas alguns. Nenhum político responsável abdicará das prerrogativas nacionais no que é existencial para o seu país. O caminho federal, ou das decisões por maioria em tudo, mesmo contra a escolha nacional, é um não caminho. Qual é o caminho, então? Cooperar. Ceder onde é possível e indispensável. Mas é preciso fazê-lo com rapidez. E isso exige liderança.

No anterior mandato, a presidente da Comissão europeia liderou a resposta da União à pandemia e à invasão da Ucrânia. Num caso preencheu o vazio, no outro, além de preencher o vazio exorbitou as suas funções. Em ambos os casos, ainda bem que o fez. Mas o tempo que a Europa vive não é para uma liderança pela Comissão Europeia. O problema não é Von der Leyen ser centralizadora e ter vocação de solista, que é e tem. O problema, e a solução, é que o que está em causa pede determinação nacional. Vinte e sete determinações nacionais, embora umas façam mais diferença que outras. E em alguns casos não bastam os que estão na UE, é preciso contar com os que estão de fora, particularmente o Reino Unido e a Noruega, mas a Suíça e até a Turquia também.

Não sendo possível a União Europeia ser liderada por 27 ao mesmo tempo e em igualdade, não sendo legítimo nem aceite ser liderado pela Comissão, não sendo possível ser liderada pelo Presidente do Conselho Europeu, resta a hipótese de ser liderada pelos que podem e querem. Mas os que podem têm de querer.

Nos últimos tempos a Alemanha tem dado a entender que está disponível para soluções de geometria variável. Parece o caminho. Mas sem França a bordo não há geometria que seja verdadeiramente europeia.

Esta semana, Bardella veio dizer que a Europa está demasiado alemã. Apesar de ser evidente que a Europa, mesmo quando segue os alemães, está a fazer o caminho que França tem defendido. Macron pode ser um líder fraco em casa, mas o seu discurso e pensamento são o que mais tem influenciado a Europa nos últimos anos. Mesmo quando é inconsequente. E o problema é que a Europa tem sido muito mais inconsequente do que impotente.

Sendo nacionalista, Bardella tem uma óbvia propensão para desvalorizar o compromisso e valorizar o exclusivismo. E é aqui que o crescimento dos nacionalismos europeus se torna particularmente grave e perigoso. A resposta europeia terá de ser dada pelos Estados, pelos países. Mas terá de ser colaborativa. Se tivermos um nacionalista em Paris, e outros pela Europa fora, em vez de uma Europa de Estados que cooperam, teremos uma Europa de Estados que fazem contas ao custo da cooperação e discursos sobre a Nação contra a integração.

Enquanto a ameaça nacionalista cresce em França, e na Alemanha, Paris disponibiliza o seu guarda-chuva nuclear e Berlim anuncia que em poucos anos será o maior exército da Europa. E não falta muito para outros anunciarem que ponderam ter de ter capacidade militar nuclear. A nossa História diz que se isto corresse mal, correria pessimamente.

Visto daqui, temos dois caminhos possíveis. Ou cooperamos, ou vamos pela fragmentação. Um pouco de História devia ajudar a resolver a equação. Mas não basta ler a História. Nesta altura é preciso haver quem a queira escrever. O problema europeu não é de excesso de regulação, falta de poder ou demasiados passos para tomar decisões. O problema é falta de visão, liderança e compromisso. E isso não existe com a Alemanha e França a afastarem-se ou isolarem-se. Esse é o mau caminho.




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