Eu sou do tempo
Há um par de dias pronunciei, com inconsciente naturalidade, uma frase profundamente perturbadora. “Eu sou do tempo.”
Aquela afirmação saiu-me da boca e só depois afligiu o espírito. Estava a conversar com uma pessoa alguns anos mais nova do que eu, quando fui confrontada com a circunstância de que ela nunca tinha visto uma cassete.
Com desconforto, dei por mim a explicar como as rebobinava, como os meus avós faziam com famoso o ajuste da antena da rádio. Às tantas já era eu que rebobinava, sobre uma série de coisas que, atendendo à expressão dela, não tinham o mínimo interesse.
Eu estava a ser aborrecida. De repente, descobri que as minhas referências, que continuam tão perceptíveis para mim, já precisam de legendas para os mais novos e, mais fatídico, que o meu entusiasmo, ao falar delas, não tem para eles a menor dignidade.
Durante muitos anos, achei que ser do tempo era uma categoria reservada aos mais velhos, aos meus pais e avós, que tinham vivido outras épocas. Eles é que eram do tempo deles. Eu era dos anos noventa; não era do tempo; o tempo era meu. Pertencia ao presente, onde tudo era atual........
