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O dia em que minha mãe passou a dizer não

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16.03.2026

Durante muito tempo da sua vida minha mãe foi uma mulher bastante razoável. Confesso que até demais. Sempre foi cordata, nunca se recusava a nada e suas palavras de conforto eram cirúrgicas e, claro, politicamente corretas. Podemos dizer que ela foi a típica mulher que fez exatamente o que se esperava dela: cuidou do marido, dos filhos e dos netos com muita dedicação.

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No entanto, com o avançar da idade, sem que tenha tido qualquer problema mental ou de saúde relevante, ela começou a atuar de maneira diferente: está mais falante, aprendeu a dizer não quando lhe desagrada dizer sim e seus conselhos hoje em dia parecem muito mais rebeldes do que aqueles com os quais me acostumei durante a vida. 

Envelhecer com autenticidade

Negar a morte é negar o envelhecimento

Ela não se tornou uma pessoa de difícil convivência, de modo algum, ela segue sendo alguém incrível. Creio que o que todos nós estranhamos foi que, pela primeira vez em todo nosso tempo de vida, passamos a ouvir a voz dela, que sempre foi quase inaudível, tamanho o desejo que tinha de agradar a todos. Para termos certeza que estava tudo bem, levamos no psiquiatra, no geriatra e, por fim, para uma psicóloga, e todos foram unânimes: não há qualquer problema, o que está acontecendo é que ela está se libertando das antigas amarras que a sociedade e ela mesma se impuseram durante toda a vida. 

Os médicos nos disseram que era muito normal que as pessoas em processo de envelhecimento se libertassem do peso de corresponder às expectativas alheias, e passassem a viver segundo aquilo que lhes toca a alma de modo genuíno. Segundo eles, na maturidade, é frequente que as pessoas percebam que não é mais necessário agradar a todos e passem a agradar também a si mesmas. Ela não deixou de nos cuidar, mas o faz hoje em dia conciliando isso com o cuidado que tem que ter consigo mesma.

No livro “A velhice”, de Simone de Beauvoir, ela nos ensina que a vida adulta é atravessada por uma pedagogia da adaptação, que nos ensina a viver em sociedade e a corresponder às expectativas alheias como se fossem próprias. Aprendemos que devemos ser razoáveis, adaptáveis, não causar incômodo e manter a harmonia nas relações, ainda que isso signifique passar por cima daquilo que verdadeiramente corresponderia àquilo que desejamos.

Creio que, com a maturidade, muitas das pressões sociais que antes direcionavam nossas condutas, começam a perder força. A carreira já não é mais tão importante, os filhos já estão criados e as obrigações, antes inadiáveis, passam a perder sua força. Talvez seja esse o tempo em que percebemos que essa vida é breve, única e irrepetível, e que viver apenas para agradar a todos é uma grande tolice. 

O olhar dos outros passa a ter um peso menor. Não é que com o envelhecimento nos tornamos mais egoístas, isso pode soar assim para as pessoas que acostumaram a nos ver sempre fazendo o que elas queriam. Mas não é bem isso, creio que esse é apenas o momento em que conseguimos conciliar o que se espera de nós com aquilo que verdadeiramente queremos fazer com nossas vidas.

Nesse sentido, a velhice, que costuma sempre vir atrelada à ideia de perdas, ganha um contorno novo e reconfortante, que é o da possibilidade de se viver de forma mais autônoma. Depois de uma vida inteira sendo convocados a cumprir papéis e a corresponder às expectativas, alguns de nós descobrem, talvez pela primeira vez na vida, a liberdade de não se ajustar completamente ao que os outros esperam de nós. 

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E isso, como aconteceu na minha família, pode ser assustador em um primeiro momento, pois nos obriga a aprender a lidar com uma nova pessoa, no entanto, ao lado do susto, no nosso caso, veio a indescritível oportunidade de conviver verdadeiramente com quem nossa mãe é, e isso, para além do desafio, está sendo uma experiência inspiradora. 

As opiniões expressas neste texto são de responsabilidade exclusiva do(a) autor(a) e não refletem, necessariamente, o posicionamento e a visão do Estado de Minas sobre o tema.


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