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Opinião | Por que tantos latinos votam no Partido Republicano?

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10.02.2026

Bad Bunny faz show político no Super Bowl, mesmo sem protesto explícito

Cantor porto-riquenho se apresentou no evento neste domingo, 8, em show que exaltou a latinidade e teve participações especiais de Lady Gaga e Ricky Martin. Crédito: Edição de Vìdeo: Ariel Libório

Não tenho o hábito de comentar sobre minha vida pessoal nesta coluna, mas hoje vou abrir uma exceção. Passei os últimos anos na condição de imigrante. Mais do que isso: de um imigrante latino-americano.

Até então, acreditava nunca ter renegado minha latinidade. Mas enquanto brasileiro, sempre estive preso num paradoxo: ter nascido no maior país latino da América e não ser reconhecido como um latino-americano.

Não sou o único a conviver com esse paradoxo. A nossa relação com os nossos vizinhos é, no máximo, cordial.

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O Brasil é o único país da América em que a língua oficial é o português. Mas ao mesmo tempo em que estamos cercados de falantes de uma língua irmã – o espanhol –, não convivemos com nossos hermanos.

Um sujeito que nasce em Fortaleza, a maior cidade do Nordeste brasileiro, está a mais de 3 mil quilômetros de distância de um sujeito que vive em La Paz, Caracas, Quito, Lima ou Assunção. Na verdade, se você vive em Fortaleza, está mais próximo de Praia, a capital de Cabo Verde, na África, do que da capital de qualquer país da América que fale espanhol.

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Para nós, brasileiros, nossos vizinhos são vizinhos distantes. E como nós estamos num continente distante, vivemos também distantes do resto do mundo, presos no nosso próprio universo.

Apesar das distâncias, nós compartilhamos muitas coisas em comum com os nossos vizinhos. Quem percebeu isso pela primeira vez foi o economista francês Michel Chevalier. Foi ele quem cunhou a expressão “latino-americano” na década de 1830.

Chevalier tentou provar, através do livro Lettres sur l’Amérique du Nord, que havia uma “raça latina” na América, com uma identidade cultural separada da “raça anglo-saxã” (a primeira, romana; a segunda, teutônica).

O século 19 foi um período tão rico para esse tipo de discussão que, nas décadas de 1850 e 1860, o pan-latinismo chegou a ser um movimento intelectual relevante no continente. Ele defendia que os povos latinos compartilham uma herança cultural, linguística e religiosa comum, marcada principalmente pelo catolicismo e as tradições greco-romanas.

Os intelectuais pan-latinos enxergavam essas características como a base para uma civilização distinta na América, mais espiritual e artística em comparação à visão de mundo mais industrial e pragmática das nações anglo-saxônicas.

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Esse é o pontapé da tentativa de criação de uma irmandade latina, um movimento de resistência às intervenções dos vizinhos ricos do norte, em defesa da construção de uma identidade política distinta, protegida da influência anglo-americana.

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Não dá para dizer que a experiência foi bem-sucedida. Ironicamente, o pan-latinismo causou mais impacto de dentro para fora do que de fora para dentro. O movimento até deixou um legado cultural de promoção dos laços entre intelectuais europeus e latino-americanos, e ajudou a consolidar um sentimento de herança compartilhada, capaz de influenciar a literatura, a música e a........

© Estadão