Madame Joséphine: o Enigma de Vidago (CAP III)
Madame Joséphine: o Enigma de Vidago (CAP III)
Quando a autoridade se perde nos meandros da conveniência política, são os pecados da carne e os fantasmas do passado que ditam as regras do jogo. Na penumbra do Palace, entre um frasco de cianeto esquecido e um beijo roubado à vigilância do mundo, a morte do Maestro deixa de ser um caso de polícia para passar a ser um veredicto do coração.
Capítulo III: O Encontro na Penumbra
A pacatez outonal de Vidago fora definitivamente estilhaçada. O nascer do sol trouxe consigo o ronco opressivo de um imponente Austin preto que subiu a alameda do hotel, rasgando o cascalho a grande velocidade. Da viatura desembarcou a brigada da Polícia Judiciária, vinda diretamente do Porto. À frente dos investigadores caminhava o Inspetor Jaime, um homem de feições severas, envolto numa capa escura que lhe pesava nos ombros quase tanto como o olhar gasto de quem passava a vida a decifrar as fendas da miséria humana.
Após receber o relatório conciso do Cabo Maximino — que postara a GNR nos acessos ao hotel com a rigidez cega dos regulamentos —, o Inspetor Jaime requisitou o Salão de Leitura. Transformou aquele reduto aristocrático num gabinete de interrogatórios improvisado. Em poucos minutos, o veludo das poltronas e o mogno das estantes ficaram impregnados pelo fumo denso de tabaco e por uma tensão quase palpável. A primeira a ser chamada foi a Baronesa de Vila Pouca. O frasco de cianeto encontrado num dos seus aposentos era uma evidência de que o investigador não podia dar-se ao luxo de ignorar.
O Inspetor Jaime inclinou-se sobre a mesa de castanho, fixando a aristocrata. Havia no seu olhar uma simbiose perigosa: a astúcia do polícia misturada com o charme calculista de quem sabe que a intimidade é a melhor ferramenta para extorquir uma confissão.
— A justiça do Porto não se curva perante brasões, Senhora Baronesa — murmurou ele, com a voz num tom grave, perigosamente suave, quase confidencial. — Mas um homem do mundo reconhece quando o veneno serve um propósito mais profundo do que a mera maleita física. O cianeto estava nos seus aposentos.........
