menu_open Columnists
We use cookies to provide some features and experiences in QOSHE

More information  .  Close

“Torres do Silêncio”

17 0
28.02.2026

"Você pode ter tudo no mundo e, mesmo assim, ser o homem mais solitário. E esse é o tipo mais amargo de solidão. O sucesso trouxe-me idolatria mundial e milhões de libras, mas impediu-me de ter uma coisa que todos nós precisamos: uma relação amorosa permanente". Freddie Mercury Terminei há poucos dias a leitura do livro “Com Amor, Freddie”, de Lesley-Ann Jones, conhecida biógrafa inglesa que já tinha escrito biografias de David Bowie, John Lennon, Paul McCartney e do próprio Freddie Mercury. Uma obra que pretende repor a verdade sobre o líder dos Queen, com base em “B”, a única filha do cantor, alicerçada nos 17 diários íntimos e inéditos que lhe foram confiados pelo pai. Cada um tem 192 páginas. O primeiro data de 1976. O último de 1991, ano da morte de Mercury. A dado momento começamos por descobrir o berço de Farrokh Bulsara (verdadeiro nome) embalado em torno do zoroastrismo, uma das religiões monoteístas mais antigas do mundo, fundada pelo profeta Zaratustra (Zoroastro) há mais de 3.000 anos na antiga Pérsia e baseada na pureza absoluta e na veneração a Ahura Mazda (Senhor da Sabedoria). Consideram sagrados os elementos clássicos da natureza: terra, água, ar e, sobretudo, fogo. Uma religião com influência clara no judaísmo, cristianismo e islamismo. É neste contexto de valores que cresce o mítico músico, nascido em 1946 no lado sul de Stone Town, maior cidade e capital de Zanzibar, arquipélago ao largo da costa de África Oriental, antigo centro do tráfico de escravos. Mais tarde, é enviado pelos progenitores para a Índia onde frequentou um rigoroso colégio interno e aí completou toda a educação básica. Escrito de outra forma, o vocalista do Queen foi tricotado na devoção a raízes indianas. O meu espanto e razão de ser deste artigo tem a ver como o corpo e a morte são encaradas. Por exemplo, na capital Mumbai (antes Bombaim), encontra-se uma floresta proibida onde reina um silêncio sepulcral. Meio camufladas, erguem-se estranhas estruturas circulares de pedra onde, diariamente, trabalhadores depositam os mortos para serem devorados por abutres. Um complexo que supera 20 hectares de floresta virgem no meio de uma das áreas imobiliárias mais caras do mundo. São as chamadas ‘Torres do Silêncio’ ou Dakhmas, típicas do zoroastrismo, utilizadas para rituais fúnebres onde os corpos são expostos ao sol. Isto ainda existe atualmente (no Irão foram desativadas na década de 70, por questões de salubridade, sendo hoje atrações turísticas). A razão de ser está sustentada no facto do corpo morto ser impuro para os zoroastrianos. A exposição nas torres (em vez de enterrar ou cremar) devolve-o à natureza de forma rápida, evitando ‘poluir’ a terra. Não é difícil imaginar o que o leitor deve estar a pensar: uma prática sinistra e macabra. É natural esta repulsa no Ocidente, mas convém não esquecer que há mais mundo para além da montanha do nosso horizonte. Estas estruturas, aos olhos dos parses, são um testemunho de uma fé que luta, desesperadamente, para se manter pura num mundo que considera poluído. As ameaças têm sido muitas. A principal é enfrentar um inimigo invisível e devastador: a farmacologia moderna. Com efeito, desde a década de 90 que os corpos deixados nos arranha- céus de Mumbai pararam de desaparecer. O quadro é dantesco. Acumulam-se e apodrecem lentamente ao sol, gerando odores insuportáveis para os moradores dos luxuosos edifícios residenciais próximos. A razão de ser está no crescente desaparecimento dos abutres. Segundo a estatística, mais de 95% de abutres da Índia morreu. A causa foi o diclofenaco, um anti-inflamatório barato que os agricultores davam a vacas idosas e doentes. Quando as vacas morriam e os abutres as devoravam, o medicamento causava insuficiência renal súbita nas aves. Foi um massacre ecológico acidental. Para contrariar e manter o ritual, foram instalados nas torres gigantescos concentradores solares cujo fim é desidratar os corpos rapidamente. No entanto, o sistema não é perfeito: em dias nublados ou durante a monção, o processo estagna e o resultado é grotesco. Isto tem feito que muitos parsis, horrorizados com o estado dos corpos dos seus pais, estejam a pedir que a cremação seja permitida. Alguns até construíram viveiros para tentar criar abutres em cativeiro perto das torres, mas o processo tem sido lento e difícil. Em suma, a palavra morte é muito mais que um fim ou um ponto final. O Deus pode ser o mesmo em diferentes religiões, a prática é que varia consoante a crença. Ficar a saber que uma ‘Torre do Silêncio’ é uma máquina projetada para o desaparecimento eficiente de matéria orgânica sem deixar vestígios, não deixa de me sarapantar o espírito. Há medida que esgravato, maior é o assombro. Nada é deixado ao acaso. A superfície da pedra – onde os corpos são colocados – é meticulosamente desenhada e dividida em três anéis concêntricos (chamados pavis), cada um estritamente reservado para um grupo social: o maior (Externo) recebe os homens; o Central vocacionado para as mulheres e o menor (Interno), mais próximo do poço, destinado às crianças. O sistema funciona por gravidade e decomposição natural. Com a carne devorada, os ossos ficam expostos ao sol escaldante e ao vento. Com o passar do tempo, os ossos branqueiam, secam e tornam-se quebradiços. É então que os trabalhadores os empurram para o poço central. Com cal, vão desintegrar-se gradualmente. Mas a engenharia da torre não termina aí: para evitar a contaminação do solo sagrado, a água da chuva que se infiltra pelo poço passa por quatro canais subterrâneos equipados com filtros de carvão e areia. Somente quando a água está pura é que ela é liberada no solo ou no mar. Há morrer e morrer. Como pudemos ler, o funeral zoroastriano não visa consolar os vivos, mas sim proteger o mundo dos mortos. A morte é sentida como o triunfo temporário do mal. No exato momento em que a alma deixa o corpo, é imediatamente invadida por Druj Nasu, o demónio da decomposição e da matéria morta. O transporte até à ‘Torre do Silêncio’ é realizado exclusivamente pelos Nusessalars (carregadores de caixão). Esses homens vivem segregados da restante comunidade parsi devido ao contacto constante com a impureza da morte. Ninguém mais tem permissão para entrar no Dakhma. Os familiares despedem-se do falecido a algumas centenas de metros da torre, em pavilhões de oração. Os Nusessalars carregam o corpo morro acima, entram na estrutura circular, rasgam as roupas do falecido com ferramentas especiais (para que ele deixe o mundo como chegou, nu). O maior espelho moderno deste pensar esteve em Freddie Mercury. Embora a vida que levou estivesse muito distante da ortodoxia estrita, nunca renunciou à sua fé. A prova está no modo como decorreu o seu funeral em Londres, conduzido por dois sacerdotes parsis (Mobed) vestidos de branco imaculado, que recitaram orações tradicionais. Como não existem ‘Torres de Silêncio’ na capital londrina, foi cremado no cemitério de Kensal Green, uma prática que os padres aceitaram a contragosto como o menor dos males na diáspora. As cinzas foram guardadas pela sua ex-namorada e melhor amiga, Mary Austin, e enterradas num local secreto que nunca foi revelado. Por entre o acreditar e o incrédulo, entre a reza e o silêncio, a morte, ao sair à rua, pode ser uma razão de expurgar o mal. Sendo assim, abramos o sorriso na certeza que ‘The Show Must Go On’.

Deixa o teu comentário

Todos somos consumidores, todos temos direitos

E nas empresas não há?

Subscrever NEWSLETTER

Subscreva gratuitamente as newsletters e receba o melhor da actualidade e os trabalhos mais profundos.


© Correio do Minho