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“Os emigrantes e as eleições...”

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01.03.2026

Não é fácil abordar o assunto, nem o antevemos isento de controvérsia, porque mexe com sentimentos, sensibilidades e patriotismos, o que quer que isso seja. Os emigrantes são obviamente portugueses que, pelas mais diversas razões, foram obrigados ou acabaram por escolher viver e trabalhar no estrangeiro. Sempre os considerei uns heróis, porque fugiram ao comodismo de não abandonar a terra natal, aventurando-se por paragens nem sempre, ou raramente, favoráveis, arrostando com sacrifícios de toda a ordem, saudades imensas do seu rincão e dos familiares e amigos que aqui deixaram. Muitos dos que cá ficaram acabam por atolar-se na cobardia de não terem o espírito arrojado e temerário dos que decidiram partir. A emigração é uma componente estrutural da sociedade portuguesa, faz parte da alma identitária deste país à beira mar plantado, desde pelo menos a época dos Descobrimentos e até aos nossos dias. Feliz ou infelizmente. Porque há quem sustente que a emigração é uma oportunidade, um desafio, enquanto outros a vêm como tábua de salvação para conseguirem uma vida melhor, para si e para os seus. Todavia, apesar das raízes multisseculares, apenas a partir da segunda metade do século XIX e após a independência do Brasil (1822) e a emergência do Liberalismo, esse movimento humano, a partir de Portugal, se intensificou, sobretudo rumo a Terras de Vera Cruz. A causa geral do fenómeno migratório num país de estrutura agrária ainda rotineira ou insuficientemente inovadora, como o nosso, era o baixo nível económico da população rural, o crescimento demasiado lento e incapaz de acorrer às necessidades dos habitantes. Dadas as facilidades concedidas pelas vias férreas de ligação ao litoral e aos portos de embarque para aqueles que almejavam por uma ascensão rápida do ponto de vista económico, a emigração foi engrossando, mormente para o outro lado do Atlântico, após um fenómeno que havia de ser decisivo na mudança dos acontecimentos: a extinção da escravatura e a necessidade de atrair mão-de-obra agrícola para a substituir. Porém, seria nas cidades e nas atividades mercantis, sobretudo no comércio a retalho, que muitos “brasileiros de torna viagem” enriqueceriam. O movimento migratório para o Brasil prosseguiu ao longo da primeira metade do século XX. E mesmo depois, ainda com grande vigor, numa altura em que começou a “saga europeia”, a partir de finais dos anos de 1950 e sobretudo a partir de meados dos anos 60, coincidindo também com o deflagrar da guerra colonial. Fugiram dos campos da miséria, das oficinas da exploração, da ameaça da guerra, em busca de uma vida melhor, da dignidade que o seu país historicamente lhes negou. Mais de 5 milhões de portugueses e lusodescendentes estão hoje em dia espalhados pelos quatro cantos do mundo, muitos deles em posições económicas, sociais e políticas de grande relevo em diversos países, da França aos Estados Unidos da América. Também eu fui durante mais de duas décadas e meia, desde a mais tenra idade, “órfão de pai vivo”, como costumo sustentar. Um pai ausente em terras de França, de onde regressava um escasso mês por ano para matar saudades da família e da terra, e retemperar energias para mais um ano de labuta. O que aconteceu com milhares de portugueses da minha condição, nos idos de sessenta a oitenta do século passado. Daí a minha admiração profunda por quem, no passado e no presente, abandona o seu país em busca de uma vida melhor, sobretudo do ponto de vista económico, para si a para os seus! Pelo que acima se refere, sempre tive a maior consideração pelos emigrantes pelo mundo espalhados, os portugueses sem medos nem fronteiras, e mantenho, apesar da profunda desilusão sentida ultimamente com a imbecil deriva extremista em que muitos deles estão anestesiados, esquecendo as condições em que foram para os países de destino e as dificuldades por que passaram. Tantos deles abalaram “a salto”, clandestinamente, ou com o chamado “passaporte de coelho”, expressões que significam o mesmo, sempre enfrentando as maiores agruras durante dias e até semanas de travessia de uma Espanha fascista rumo a terras gaulesas, oceano de liberdade e destino de tantos sacrifícios. É para mim absolutamente incompreensível e intolerável a posição de milhares de emigrantes que hoje estão do lado de partidos políticos que combatem ferozmente a imigração, associando-a injustamente ao aumento de insegurança em Portugal. Imaginemos que os países que os acolheram, a França, a Suíça ou o Brasil, há mais ou menos tempo, lhes faziam exatamente o que eles apoiam que façam aos imigrantes que nos nossos dias demandam Portugal, para suprir mão de obra que aqui escasseia e cumprir os seus sonhos de uma vida mais feliz. Não estariam a cantar de galo, enraizados em teses da extrema direita, movidos por esses encantadores de asininos que em Portugal têm um nome: André Ventura. Não me conforta saber que os votantes são apenas 5% do total dos recenseados que, por qualquer motivo, se recusam a exercer a sua soberania. Valem os que votam e exprimem um sentimento que, levado ao absurdo, alteraria por completo o estado de coisas em Portugal. Sempre considerei que os emigrantes portugueses no estrangeiro estão sub-representados nas instituições nacionais, em especial no Parlamento, onde apenas quatro representantes têm assento, dois eleitos pelo círculo da Europa e outros dois pelo círculo de fora da Europa. Contudo, vendo bem as coisas, não me parece curial nem ajustado que os votos dos emigrantes sirvam para dar uma expressão diferente ao “sentir e viver” dos portugueses que cá estão. Ou, dito de outro modo, para condicionar o dia a dia dos portugueses pelos votos de quem aqui não reside. Ou seja, os emigrantes não vivem nem trabalham em Portugal. Apenas cá vêm uma vez por ano, ou nem isso. Não têm conhecimento direto e concreto do que aqui se passa, quais as dificuldades ou problemas com que os residentes se deparam no dia a dia. Não ganham nem descontam o que aqui se ganha e desconta, mal ou bem. O que eles sabem ou dizem saber é muitas vezes enviesado por considerações políticas ou ideológicas dos neossalazaristas, que manipulam a informação e a realidade, associando a imigração à insegurança ou à percepção de que os imigrantes vêm ocupar postos de trabalho dos portugueses, quando nada disso é verdade. Antes profundamente falso! O que eu quero concluir é que não me parece coerente que, por paradoxal, os nossos emigrantes, que não vivem nem trabalham cá, contribuam maioritariamente para a eleição de um governo, por exemplo, que vá gerir a vida, a sociedade e a economia dos que aqui vivem, não dos que aqui vêm de férias. Quem aqui vive, tenham paciência, é que tem de decidir como, com quem e com que programas e objetivos quer viver. Eu também não voto na eleição para o governo dos países de acolhimento dos nossos emigrantes. Nem tenho de o fazer! Como diz o povo, e aqui se aplica justamente, a meu ver, “quem está fora, racha canhotas”.

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