O suicídio político de Trump
Depois de um bombardeamento surpresa, que tudo indica terá eliminado logo de início boa parte da cúpula do regime persa, e de uma inicial onda de apoio de iranianos, dentro e fora do país, alimentada pela esperança de mudança de um regime que é, importa dizê-lo, abjeto, pouco mais aconteceu. Mas duas semanas decorridas, tornam-se agora evidentes os limites do embate entre o “supremo” poder militar dos EUA e uma máquina de guerra iraniana ‘low cost’.
O estreito de Ormuz está presentemente, para todos os efeitos e pela ação do Irão, encerrado ao transporte de combustíveis fósseis, exceto para a China. Isto é profundamente humilhante para os EUA de Donald Trump, que, apesar dos biliões investidos nas suas forças armadas, não conseguem proteger a passagem de navios naquele pequeno troço de mar. A China é o principal alvo geopolítico desta intervenção: sustenta o regime iraniano comprando o petróleo que o Ocidente tenta bloquear com sanções. O Irão, por sua vez, fornece drones militares à Rússia de Putin, ajudando-a a prolongar a guerra na Ucrânia, financiado também pela venda de petróleo à China. Desfazer este eixo China-Rússia-Irão parece ser um dos grandes objetivos de Trump. E também da Europa, mas nunca por esta via. E os que escarnecem da UE começam agora a perceber porquê.
Salvo volte-face, a mudança de regime em Teerão parece cada vez mais inverosímil. E as pernas do “génio extremamente estável” começam a fraquejar. A cada dezena ou centena de milhões de dólares em mísseis americanos e israelitas, o Irão responde com drones muito mais baratos, que os EUA continuam sem conseguir travar por completo. Em breve, esgotar-se-ão os sofisticados mísseis americanos. Os drones iranianos continuarão. Entretanto, o preço do petróleo dispara e os bolsos dos americanos esvaziam-se mais um pouco.
Os EUA atacaram o Irão porque o regime vive um momento historicamente frágil: Hamas e Hezbollah enfraquecidos, um regime sírio diferente e uma economia iraniana em crise profunda. Mas, agora, muito provavelmente, Washington terá de negociar e retirar-se. Com o rabo entre as pernas. A menos que avance para uma invasão terrestre, o que seria uma tragédia inconcebível.
Antes de sair, Trump fará o costume: dirá que a culpa é dos outros, culpará a União Europeia e proclamará o melhor e mais fantástico acordo com o Irão. Mas, para lá dos bajuladores e dos fãs MAGA, quem irá acreditar? A inflação vai crescer nos EUA e, perante a evidência, as tangas narrativas de Trump perderão algum apelo. Com maiorias mínimas nas duas câmaras, será cada vez mais difícil convencer os eleitores a manter o Partido Republicano no poder. Sem maioria no Congresso, os últimos dois anos de Trump serão muito diferentes. O seu poder ficará cerceado, o partido será forçado a pensar no pós-Trump e o presidente deixará de ser o vórtex do centro mediático. Esse será o verdadeiro teste à democracia americana: o que fará Trump para reverter o seu suicídio e evitar tornar-se politicamente irrelevante?
