33 anos com os olhos abertos

Dentro de poucos dias, a VISÃO vai celebrar o seu 33º aniversário. É mais um marco no calendário de uma bela história iniciada a 25 de março de 1993, com uma capa sobre a guerra que então martirizava Angola, contada aos leitores através do trabalho de duas equipas de enviados especiais. Nesse número inaugural, os repórteres José Plácido Jr. e Inácio Ludgero relatavam, em exclusivo, a agonia de milhares de angolanos após a terrível Batalha de Huambo, enquanto Filipe Luís e Gonçalo Rosa da Silva contavam os meandros da rota secreta dos diamantes, nas minas da Lucapa, junto à fronteira do que então ainda se designava Zaire. Durante o seu trabalho de reportagem, as duas equipas passaram pelas dificuldades habituais que os repórteres têm de enfrentar quando são chamados a cobrir um conflito: estiveram debaixo de fogo, tiveram de iludir a vigilância daqueles que querem esconder a realidade, foram ameaçados e até detidos, durante algumas horas, pelas autoridades.

Ao longo dos últimos 33 anos, muitos outros repórteres da VISÃO viveram situações semelhantes, em vários pontos do globo. E quase todos os que passaram pela redação da VISÃO em algum momento sofreram pressões, avisos e, nalguns casos, até mesmo ameaças, já para não falar dos vários processos em tribunal, tantas vezes lançados para nos silenciar, mas que têm terminado, invariavelmente, na absolvição.

Agora, 1724 semanas depois desse primeiro número, a VISÃO continua a existir e a publicar-se devido ao empenho e à dedicação dos seus jornalistas, nomeadamente o pequeno grupo que, no verão passado, em sequência da insolvência e da respetiva ordem de liquidação da Trust in News (empresa proprietária do título desde 1 de janeiro de 2018), requereu ao tribunal o direito a continuar a produzir a revista. Quando avançámos para esse requerimento, com salários em atraso, com o despedimento coletivo anunciado e prestes a perder o espaço físico de trabalho, fizemo-lo para poder continuar a honrar o jornalismo livre e independente que sempre foi o ADN da VISÃO.

A resposta que tivemos por parte dos leitores foi encorajadora e muito tocante. Milhares de pessoas pediram-nos para não desistirmos e mantermos a VISÃO e tudo o que ela representa no panorama da comunicação social portuguesa: um espaço de liberdade, pluralismo, atento ao rigor e à verdade dos factos, mas também um veículo de análise da realidade, que vá além da espuma dos dias e estimule leituras mais transversais e profundas sobre tudo o que diga respeito às nossas vidas.

Esta tem sido uma tarefa exigente, por vezes complicada, mas sempre muito estimulante. De tal forma, que decidimos, no início deste ano, como tem sido amplamente divulgado, “não fechar os olhos” ao que poderia ser a morte anunciada de um título histórico, e avançámos, resolutamente, para um objetivo superior: comprar a VISÃO e mantê-la com os jornalistas que a fazem. Foi para isso que lançámos uma angariação de fundos pública, que já ultrapassa os 270 mil euros e que tem recebido o apoio entusiasta de um leque alargado de personalidades e de milhares de leitores. Foi também por isto que, esta semana, reunimos os nossos amigos numa VISÃO Fest. E é por isso que, todos os dias e todas as semanas, trabalhamos com o máximo empenho para respeitar a confiança que os leitores nos têm demonstrado – e que já levou, por exemplo, a distribuidora a pedir-nos para aumentarmos a tiragem da revista.

Nesse conturbado processo, repleto de decisões judiciais imprevisíveis e de arrastamento de procedimentos para lá do que seria expectável, a redação da VISÃO tem sabido manter-se confiante em relação ao futuro.

E, por isso, a nossa mensagem aos leitores é simples e esperançosa: vamos continuar no mesmo caminho – sempre de olhos abertos, com total transparência e convictos de que, mais tarde ou mais cedo, a VISÃO vai ser dos jornalistas que a fazem. O tempo não volta para trás.


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