Opinião | Não deixar crianças mudar de sexo não é negar identidade... é protegê-las enquanto ainda estão a crescer |
Há temas que exigem mais do que opinião. Exigem cuidado. Exigem tempo. Exigem consciência de que, por detrás de cada debate público, há vidas reais, muitas vezes ainda em construção. A questão das intervenções de mudança de sexo em menores é um desses temas.
Vivemos numa época em que se valoriza — e bem — a liberdade individual. Cada pessoa deve poder viver de acordo com aquilo que sente, com aquilo que é. Essa liberdade é um princípio fundamental de uma sociedade moderna e respeitadora da dignidade humana. Mas há uma linha que não pode ser ignorada: o tempo certo para decidir.
Uma criança ou um adolescente não é um adulto em ponto pequeno. Está em desenvolvimento físico, emocional e psicológico. Está a descobrir-se. A questionar-se. A mudar. E, muitas vezes, a contradizer-se. É precisamente por isso que a lei, em tantas áreas, reconhece que os menores não têm ainda plena capacidade para decisões definitivas e irreversíveis. E é aqui que o bom senso deve entrar.
Não se trata de negar identidades, nem de desrespeitar quem vive um conflito profundo consigo próprio. Trata-se de proteger. De garantir que decisões com impacto permanente não são tomadas numa fase em que a própria identidade ainda não atingiu a sua maturidade.
A resposta não pode ser a precipitação. Deve ser o acompanhamento. O apoio psicológico. A escuta ativa. O envolvimento das famílias. A criação de espaços seguros onde o jovem possa crescer, compreender-se e, acima de tudo, ganhar tempo, tempo para ter a certeza.
Porque há decisões que exigem maturidade. E essa maturidade não nasce da pressão social, nem da urgência mediática. Nasce do tempo.
Num tema tão sensível, é legítimo defender que intervenções irreversíveis devam ser adiadas até à maioridade. Não como negação, mas como proteção. Não como recuo, mas como responsabilidade.
Cada pessoa tem o direito de fazer escolhas sobre o seu corpo. Mas esse direito deve caminhar lado a lado com a capacidade plena de compreender as suas consequências. E quando falamos de crianças, essa capacidade ainda está a ser construída.
No meio de tantas vozes, talvez o mais difícil, e o mais importante, seja isto: parar, escutar e proteger.Porque, às vezes, cuidar é precisamente saber esperar.
Os textos nesta secção refletem a opinião pessoal dos autores. Não representam a VISÃO nem espelham o seu posicionamento editorial.