Racismo? Sim, também sou culpado. Por Pedro Marques Lopes

Não vale a pena invocar a irracionalidade que o futebol provoca. Racismo é racismo, aconteça num estádio, numa rua, numa repartição pública, num post de rede social ou num ecrã televisivo.

A razão para o futebol abrir esta crónica reside, claro está, nos infelizes acontecimentos da semana passada e no que eles voltaram a mostrar sobre uma doença que demasiados não sentem e outros tantos fingem que não veem. 

Uma grande instituição, com enorme e indesmentível influência, como o Sport Lisboa e Benfica não condenou, sem mas, uma possível conduta racista dum seu jogador. Em vez de o fazer, dando obviamente nota de que iria investigar para apurar todos os factos, resolveu divulgar um vídeo sem pés nem cabeça onde basicamente se tenta provar que o jogador do Real Madrid, Vinícius, é um mentiroso. Entre defender a todo o transe um jogador − deixando-o, ainda para mais, sem margem de recuo para se retratar − e alinhar na defesa dos mais básicos direitos humanos e da mais elementar decência, a direção da instituição não hesitou: mandou às malvas a luta contra o racismo. Logo o Benfica que tem entre as suas maiores figuras pessoas negras.

O melhor treinador português de todos os tempos disse, por outras palavras, que o Vinícius mereceu o insulto porque exagerou na comemoração do golo que marcou. Como muita gente lembrou, um argumento a lembrar o “andas de minissaia, estás a pedi-las”. Não contente com esta boçalidade, lembrou-se de dizer que o melhor jogador da história do Benfica era negro, logo… qualquer semelhança com o conhecido “eu até tenho um amigo negro” não será simples coincidência. 

Queiramos ou não, o futebol tem uma enorme influência social. Assistir a um clube como o Benfica e a José Mourinho a relativizar o racismo é mais do que preocupante. Valha-nos a reação generalizada dos maiores clubes do mundo e das mais importantes figuras do desporto – só a Federação Portuguesa de Futebol e a Liga dos Clubes se esqueceram. 

Não faltaram comentadores de futebol, profissionais ou ligados a clubes, indignados por agora já não se poder ipsis verbis “chamar preto a um preto”. Houve também quem defendesse que o rapaz merecia ser tratado por macaco por causa da festa do golo. E a melhor de todas: o Vinícius era useiro e vezeiro a queixar-se de insultos racistas. Ou seja, queixar-se uma vez vá que não vá; muitas já é cansativo. 

Não vi ninguém a explicar a esses intelectuais que a maioria esmagadora das pessoas que sofrem insultos racistas, no exercício das suas atividades profissionais, tem muitas vezes de os aguentar por uma questão de sobrevivência. É certo que há hoje maior consciência da necessidade de lutar pelo direito de não ser maltratado, mas é sempre mais fácil revoltar-se quem tem talentos especiais e dinheiro. Talento e dinheiro não faltam a Vinícius − e coragem, já agora, também não.  

Para não insultar a inteligência de quem me lê, abstenho-me de discorrer sobre a diferença de chamar preto a um negro e branco a um branco. Lembremos apenas José Cardoso Pires quando dizia no De Profundis algo como “uma pessoa sem memória não é ninguém”.

Também não vou fazer perder tempo ao estimado leitor explicando por que razão insultar a mãezinha de alguém é, digamos, um insulto democrático (toda a gente tem uma mãe) e chamar preto ou macaco é desqualificar a pessoa na sua mais básica essência. 

Haver 32% de cidadãos eleitores que votam num racista já nos dá uma boa indicação sobre o estado da nossa comunidade. Mais, termos o segundo maior grupo parlamentar e o seu líder a proclamar o racismo de forma tão clara potencia um discurso público cada vez mais desbragado, e que vai para lá dos votantes de André Ventura

Haver 32% de cidadãos eleitores que votam num racista já nos dá uma boa indicação sobre o estado da nossa comunidade. Mais, termos o segundo maior grupo parlamentar e o seu líder a proclamar o racismo de forma tão clara potencia um discurso público cada vez mais desbragado, e que vai para lá dos votantes de André Ventura

A introdução é longa; o desenvolvimento e a conclusão são curtos − porque conhecidos. 

Arriscaria apostar que, se as mesmas circunstâncias acontecessem noutro clube português, as reações teriam sido idênticas. Sou, há mais de 50 anos, testemunha presencial de insultos racistas nos campos de futebol e, já agora, não vejo que estejam a diminuir. Há maior consciência de quem sofre os insultos, mas sinto também menor vergonha de quem os profere. Como se se sentissem mais à vontade para os fazer, como se ser racista fosse uma forma de exercer liberdade.   

Haver 32% de cidadãos eleitores que votam num racista já nos dá uma boa indicação sobre o estado da nossa comunidade. Mais, termos o segundo maior grupo parlamentar e o seu líder a proclamar o racismo de forma tão clara potencia um discurso público cada vez mais desbragado, e que vai para lá dos votantes de André Ventura. Normalizar o racismo pode, no limite, não fazer aumentar os votantes na extrema-direita, mas legitima-o. Como, obviamente, ter partidos como o PSD e a IL a colaborarem com o Chega noutras matérias torna ainda mais defensáveis as posições dos extremistas em tudo o resto.  

Há, contudo, uma responsabilidade mais extensa na perpetuação de comportamentos racistas. Não falo da que vem do Estado Novo e que se manteve viva – a ideia de que os portugueses teriam inventado uma espécie de racismo mais humano, mais brando. Essa aldrabice que esquece mais uma vez a nossa História e toda a violência e a humilhação que promovemos; a que nos levava a dizer, com orgulho, que Deus tinha inventado o homem e os portugueses, o mulato. 

Somos nós, os que dizemos não ser racistas, que toleramos as atitudes mais nojentas. Somos nós os que nos rimos de o Costa ser “monhé” e ao ouvirmos comentários sobre atitudes típicas dos “pretos”, respondemos com sorrisinhos complacentes. Somos nós os que fingimos ignorar por que diabo no espaço público, nas administrações de empresas, nos governos, no Estado, são todos brancos. 

Falo por mim: como atrás escrevi, há mais de 50 anos que ouço comentários racistas em campos de futebol.

Nunca interpelei um desses selvagens, nunca saí de um estádio em protesto pelo que estava a ouvir. Custa-me, mas tenho de assumir: sou conivente com o racismo, e ser num campo de futebol ou na rua não importa rigorosamente nada.

A culpa também é minha. 


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