Estamos cada vez mais sós e mais frágeis. Opinião de Pedro Marques Lopes

A proposta de alteração à legislação laboral tem tido algumas virtualidades inesperadas. Uma delas é a enésima confirmação de que o PSD deixou cair a pequeníssima réstia de pensamento social-democrata que ainda pudesse ter. Bem sei que não é grande novidade, mas um partido que defende uma legislação que aprofunda a já frágil posição do trabalhador, que sustenta que a competitividade melhora se se retirarem direitos aos trabalhadores e que pretende reduzir a já pouca capacidade de os sindicatos defenderem o trabalho pode ser tudo menos social-democrata.

Além do mais, é ineficaz nos seus propósitos económicos: não, a precariedade não gera mais produtividade; a precariedade gera trabalhadores menos preparados, menos motivados, e a instabilidade nas suas vidas tem consequências sociais graves que vão muito para lá da questão do emprego.

Na linha desta já consolidada viragem ideológica do PSD, lá apareceu o argumento do progresso. Já se sabe: o progresso justifica tudo. Pelos vistos, a Inteligência Artificial, as novas empresas e seja lá mais o que for impõem que quem trabalha tenha menos direitos e menos capacidade de lutar por eles. Vale a pena lembrar que é exatamente em momentos de mudança, provocados por alterações económicas ou outras, que é fundamental criar mais proteções para os trabalhadores.

É que o trabalho é, em larguíssima medida, quem nós somos; é o que nos dá dignidade perante os outros, que nos dá um lugar na comunidade. O progresso não é uma espécie de paraíso: é um processo que só faz sentido se nos garantir bem-estar, sentimento de pertença, igualdade e solidariedade. Relações laborais como as que esta proposta propõe não levam ao progresso; conduzem, sim, a um retrocesso em aspetos fundamentais para o bem comum.

Uma das mais interessantes teses sobre todo este processo........

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