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Das Lajes ao Irão. Pelo psicólogo e autor Pedro Almeida Maia

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07.03.2026

No último dia de fevereiro, depois de o Irão retaliar contra as bases americanas, tranquei a porta de casa por dentro. Vivo em São Miguel, noutra ilha, é certo, mas a Base das Lajes fica a 170 quilómetros daqui. Em linha reta, é a mesma distância que separa Lisboa de Coimbra.

Em 1917, um submarino alemão disparou ao largo da ilha de São Miguel, e dois projéteis caíram na Canada do Pilar, matando uma jovem de 16 anos e ferindo outras pessoas nas imediações; durante a II Guerra Mundial, sobretudo entre 1941 e 1943, submarinos alemães atacaram navios nas proximidades dos Açores e houve bombardeamentos a partir do mar contra zonas costeiras; em março de 2003, a ilha Terceira foi palco do encontro entre George W. Bush, Tony Blair, José María Aznar e Durão Barroso, e o ultimato ao regime de Saddam Hussein resultou, quatro dias depois, no início da invasão do Iraque.

Os açorianos estão mais do que habituados a medos difusos, sismos, tempestades e vulcões, mas testemunhar semelhantes sentenças a partir da nossa varanda gera inquietação. Imagine-se que o nosso vizinho do andar de cima decide arrendar uma parte da sua casa − a Base das Lajes − a um inquilino poderoso. Durante os primeiros anos, a convivência é estável e corre tudo bem. Um barulho aqui e uns gritos acolá. Mas o inquilino decide fazer obras demoradas: parte paredes, fecha a marquise e instala um radar na janela do quarto de cama. De vez em quando, mete música alta, faz festanças até altas horas e derrama ácidos pela tubagem.

De um dia para outro, deixa de nos cumprimentar nas escadas, começa a envolver-se em brigas, a atirar pedras aos que passam na rua, a ameaçar os rufias do outro lado da cidade, e até a dar tiros para o edifício em frente. Temos jornalistas à porta e os noticiários abrem com imagens do nosso prédio. Se alguém quiser retaliar, sabe a morada. E o vizinho que assinou o contrato descobre que pouco ou nada pode fazer para proteger os seus.

A utilização intensiva e pouco clara da Base das Lajes, no contexto de ataques ao Irão e de escalada internacional, coloca Portugal inteiro numa posição delicada. Quaisquer que sejam as simpatias ou antipatias que cada um tenha face aos regimes em confronto, há um princípio que não pode ser relativizado: o respeito pelo direito internacional e pela segurança das populações civis. Quando esse princípio é atropelado, todos os territórios envolvidos se tornam potenciais alvos de retaliação.

Quem vive numa ilha sabe que sentirá as primeiras rajadas sempre que o vento mudar. O medo cresce no vazio de informação e na perceção de descontrolo. Se a Base das Lajes é parte de compromissos estratégicos, então que esses compromissos sejam explicados com transparência e enquadrados no respeito pela lei internacional.

Nos últimos tempos, revive-se a ideia de adjacência, a mesma alienação que assombrou no passado e que teima em ressurgir. Acontece com as coisas simples, como o preço bombástico de um simples bilhete de avião, mas agora, novamente, também com a política internacional a derramar-se paredes-meias. Os Açores são um território desamparado que serve a conveniência. A distância ao centro político do País voltou a ser a mesma distância da decisão. E a Base das Lajes tornou-se uma peça de xadrez num tabuleiro inclinado. Erguem-se bandeiras, invoca-se soberania, cantam-se alianças históricas e gagueja-se a importância estratégica, mas quando o assunto não dá aplausos ouve-se apenas o vento encanado.

Os cidadãos deste país têm famílias, projetos e vulnerabilidades. Numa altura em que o mundo parece inclinar-se perigosamente para a escalada, exigir responsabilidade política é cuidar: o mínimo que se espera de quem governa a casa onde se vive. Espero que ainda haja tempo de convocar uma reunião de condomínio.

Os textos nesta secção refletem a opinião pessoal dos autores. Não representam a VISÃO nem espelham o seu posicionamento editorial.


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