Lobo Antunes, o divã social

Custou-me conhecer António Lobo Antunes. Zanguei-me com ele e estive anos sem ler uma linha da sua escrita. Regressei e fiquei mais marcado do que já estava. Era único na maneira como nos colocava no divã do psicanalista. Um verdadeiro arqueólogo da nossa forma de estar e de ser, um gramático da nossa psicologia coletiva, partindo e trabalhando no mundo dos nossos traumas nunca resolvidos.

O meu regresso a Lobo Antunes, depois de ter ficado deslumbrado com o Manual dos Inquisidores (1996), em que Lobo Antunes mostra a sua plena maturidade, um texto de uma poética profunda e arrebatadora, com O Esplendor de Portugal (1997), fui-me abaixo nessa mecânica autofágica de me colocar numa posição de sofrimento. O texto era bom de mais para o ler apenas como literatura. Eram visões, como Lobo Antunes dirá, que me arrebatavam e me levavam para espaços difíceis de viver.

Era o tempo de Saramago, o Nobel aproximava-se e a rivalidade entre os dois génios ganhava foros de mediatismo. Poucas vezes a nossa cultura teve o privilégio de ter ao mesmo tempo duas figuras que ficarão para a História como dois dos mais importantes escritores da língua portuguesa, ambos no olimpo da escrita universal. Há momentos em que somos bafejados por uma beleza muito superior e subtil, sem que tenhamos feito nada para isso. A mim, bastava-me ir aguardando a saída de mais um romance, alternando entre os dois autores. Nessa viragem de século, tornei-me mais saramagodependente.

Regressei a Lobo Antunes pela crónica, pelos textos semanais que publicava aqui na VISÃO. Recebia a revista em casa e, religiosamente, ia direto ao seu texto. Seu, não. As crónicas de Lobo Antunes eram talvez um dos mais perfeitos exercícios em que cada leitor se transformava num escritor. Eram sonhos, eram vislumbres, eram situações ou sentimentos que nos puxavam para o onírico, para memórias que despertavam em cada um mais memórias e mais sonhos. Fiz parte do meu reencontro e pacificação com algumas pessoas através dos seus textos que me lançavam numa catarse a que não conseguia fugir. Mas eram dutos, poeticamente belos.

Há uns anos, comecei a reler alguns dos seus livros que lera nos anos noventa. Fui logo para os dois primeiros, os que no título imortalizaram elefante e cús. Na leitura desses dois textos genesíacos de escritor, recordei imensas vezes uma historieta que um amigo, o Rui Oliveira, me contou. Também ele regressado de África depois das independências, trabalhava em artes gráficas, como dantes se dizia. No gabinete onde trabalhava, por intermédio de alguém conhecido, surgiu um jovem médico vindo também de África, que queria editar um livro, o seu primeiro livro. Vinha pela mão de Assírio Bacelar, que pedia um trabalho feito entre os de maior folgo da oficina gráfica. Sairia numa chancela então pouco conhecida, a Veja, como acontece a quase todos os escritores em início de encontro de vocação, sem não antes criar um burburinho em linha de quase revolta nas quase analfabetas mulheres que tratavam da composição tipográfica. Em voz desagradada, marcada pela educação do Estado Novo, vociferavam: “é só asneiredo!”, “nunca mais tragam para cá estas coisas!”.

Sim, a escrita por vezes era rude. Tal como a vida dessas mulheres que por detrás de uma série de interditos e polimentos aparentavam a educação que não tinham. Regressei a essa rudeza que era poética na forma como o quotidiano o pode ser. Tenho agora a tarefa, como a deveríamos ter todos nós, de voltar (ou ir pela primeira vez) a essa fonte de incómodo que é Lobo Antunes. Faz-nos falta, como cultura e sociedade, sair do sofá das escritas cómodas e das séries previsíveis, recheadas de lugares-comuns, símbolos, personagens desenhados para nos cativar, e ir ao encontro de gente comum, como nós, em páginas de drama existencial, exatamente os mesmos de que fugimos.

Os textos nesta secção refletem a opinião pessoal dos autores. Não representam a VISÃO nem espelham o seu posicionamento editorial.


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