Para quê apoiar a cultura se podemos ver o que quisermos no Tiktok de graça?

Vivemos num tempo em que o futuro não parece ser uma prioridade, nem no prato que nos põem à frente na cantina da escola, onde se selecionam ingredientes de acordo com a classe social, nem nos ecrãs que transportamos no bolso todos os dias, nem nas páginas de jornais que, por vezes, parecem ignorar mudanças radicais na sociedade, preferindo colocar, nas parangonas dos seus diários, palavras que exaltam mais do que esclarecem, escandalizam mais do que nos informam, e que nos desanimam mais do que nos indicam um caminho a (não) percorrer.

Na semana passada, dois tribunais norte-americanos, um em Los Angeles e outro em New Mexico, acusaram as plataformas Meta (Facebook e Instagram) e YouTube de serem parcialmente responsáveis pela saúde mental dos adolescentes ao promoverem redes sociais e aplicações que são desenhadas para serem deliberadamente viciantes e que distribuem conscientemente conteúdo inapropriado para a idade dos seus utilizadores, levando-os a uma espiral de depressão, desordens alimentares e pensamentos suicidas.

Snapchat e TikTok não foram acusadas porque chegaram a um acordo com uma das vítimas para evitar o julgamento.

Estas duas condenações inéditas custarão às plataformas 6 milhões e 376 milhões respetivamente, um valor que talvez possa ser irrisório para as plataformas em causa (e para os crimes cometidos contra o futuro da humanidade), mas do qual Zuckerberg já anunciou que irá recorrer alegando que é impossível provar cientificamente que a saúde mental dos adolescentes possa estar relacionada com o uso de redes sociais, que a estabilidade emocional de qualquer adolescente está dependente de demasiados fatores para se culpar apenas o ecrã azul ou ainda que a segurança dos seus utilizadores sempre foi uma prioridade e, por fim, se os adolescentes não estão a gostar da experiência porque continuam a usar este produto?

Este último argumento deu-me a volta ao estômago. “Se não estão a gostar porque é que usam?” é uma frase que só pode ser vomitada por alguém sem qualquer… que revela um… que só pode ser concebida quando não se é… enfim… dei por mim a escrever esta carta para ti e a cruzar um milhão de referências e de razões para denunciar a alienação de um CEO que deveria estar a pedir desculpa à humanidade e aos filhos de um planeta inteiro em vez de esgotar os seus recursos (ganho às custas das suas vítimas) a recorrer em tribunais para não perder pontos na bolsa de valores daquele dia. Mas tal não é importante na verdade. O que me parece ser mais estranho e inusitado é o facto de estas duas vitórias não abrirem todos os telejornais e não estarem escarrapachadas em todas as primeiras páginas de todos os jornais. Não só este é um primeiro passo importantíssimo numa luta que tem vários anos a passo de caracol, como é um primeiro gesto que responsabiliza os detentores de plataformas dirigidas claramente a adolescentes apesar de afirmarem serem para maiores de treze ou em alguns casos dezasseis anos, um gesto que nos diz, preto no branco: Sim, estão a viciar as nossas filhas e filhos, a convidá-los a uma espiral de depressão e a uma desesperante falta de auto-estima, a desenhar os seus desejos, os seus sonhos, e, consequentemente, o futuro de um planeta que precisa urgentemente que sejamos mais matéria que imagem, mais chão que estrelas, mais humano, sim mais humano, mais animal, mais mineral, do que super-heróico e nós… aceitamos, viramos a página e colocamos nos tops de leitura de um jornal uma receita para emagrecer, uma notícia de uma celebridade ou uma frase escandalosa de um possível consultor para a cultura a favor do desinvestimento do apoio à cultura ou mesmo da existência de um ministério da cultura! Para quê apoiar a cultura se podemos ver o que quisermos de graça no TikTok?

Esta rubrica é uma troca de correspondência entre Cláudia Lucas Chéu e Patrícia Portela


© Visão