A nova cartografia energética do poder

O clima já não é o mesmo. Com o agravamento da crise climática, a matriz energética começou a mudar. O objetivo é reduzir o uso de combustíveis fósseis, petróleo, gás e carvão, e expandir fontes de baixo carbono através da eletrificação da economia. Não por acaso, mais de 70% das emissões que aquecem o planeta e intensificam desastres em todo o mundo vêm dos fósseis.

Mas a transição energética não é apenas agenda climática. É também uma disputa de poder. Da Venezuela ao golfo Pérsico e ao Ártico, do triângulo do lítio na América do Sul à Amazónia brasileira, a nova economia da energia abriu uma corrida por território, minerais estratégicos e controlo de cadeias industriais.

A promessa de descarbonização convive com uma reorganização profunda da geopolítica global. Em jogo não está apenas a tecnologia que substituirá o petróleo e o gás, mas quem controlará os recursos e as infraestruturas do novo sistema energético.

Isso já aconteceu antes. Na História da Humanidade, cada mudança na matriz energética alterou a hierarquia das potências. O carvão sustentou a expansão industrial britânica no século XIX. O petróleo consolidou a hegemonia dos Estados Unidos da América no século XX e estruturou um sistema económico global profundamente dependente do crude.

O novo tesouro do século XXI

A disputa desloca-se agora para um novo conjunto de recursos: lítio, níquel, cobalto, grafite e terras raras. Os minerais críticos tornaram-se a base material da eletrificação da economia. Permitem fabricar baterias, redes elétricas avançadas, motores e sistemas digitais. Sem eles, não existe eletrificação em grande escala. Sem eletrificação, não existe transição energética.

A energia eólica ajuda a entender essa lógica. O vento move turbinas e gera eletricidade. Mas a energia precisa de ser armazenada e distribuída. É aí que entram as baterias, fabricadas com lítio, níquel, cobalto e grafite. Sem armazenamento, vento e Sol não garantem abastecimento contínuo. Por isso, os minerais críticos tornaram-se o novo tesouro do século XXI. Quem controla esses recursos controla a base material da nova economia energética. E, em grande medida, decide quem manda no mundo.

Estados Unidos da América e China são hoje os dois polos centrais dessa disputa que redesenha a ordem mundial. Cada lado articula cadeias industriais, alianças políticas e zonas de influência. Os conflitos fazem parte do processo. Enquanto Washington recorre com frequência à pressão diplomática, militar e financeira, Pequim seguiu outra estratégia ao longo das últimas três décadas. A China construiu uma rede global baseada em comércio, infraestrutura e indústria.

O passo decisivo ocorreu no processamento de minerais críticos. Hoje, Pequim domina cerca de 80% da refinação mundial de lítio, grafite e terras raras, minerais essenciais para baterias e tecnologias da transição energética. A China pode não possuir todos esses recursos no seu território, mas domina a capacidade industrial de os processar. É esse poder que transforma recursos alheios em dependência estratégica.

Enquanto Trump tende a disputar territórios e rotas energéticas, Xi Jinping consolida influência através da indústria e das cadeias de valor. Estratégias diferentes para a mesma disputa: o controlo material da energia.

O barril ainda é o senhor da guerra

A escalada de tensões no golfo Pérsico mostra que a dependência do petróleo continua visceral. Depois da operação na Venezuela, Donald Trump voltou a atenção para outra região central do sistema energético mundial: o Médio Oriente.

Mas a crise revelou rapidamente um limite. O Irão não é a Venezuela. Além do arsenal militar, o país possui uma arma estratégica: o petróleo e a capacidade de pressionar o estreito de Ormuz, uma das rotas mais sensíveis do planeta. Cerca de um quinto do petróleo transportado por via marítima no mundo passa por ali. Basta ameaçar a rota. Ou simplesmente colocar-se no meio do caminho.

Trump entrou numa encruzilhada, atingido pelos efeitos colaterais da dependência do petróleo. No fim, o verdadeirosenhor da guerra continua a ser o barril

Ao usar o petróleo como arma numa guerra assimétrica, quase existencial, o Irão aumentou o risco no estreito e travou o tráfego de petroleiros. O transporte de crude desacelerou, o preço do barril subiu e a economia global sentiu o choque. Trump também.

A turbulência obrigou os Estados Unidos da América a procurar uma saída improvável: suspender temporariamente parte das sanções energéticas à Rússia após a invasão da Ucrânia, permitindo que mais petróleo russo chegasse ao mercado internacional para aliviar a crise.

Moscovo, que mantém relações estratégicas com Teerão e utiliza armamento iraniano na guerra da Ucrânia, acabou também por beneficiar da escalada no Médio Oriente. Trump entrou numa encruzilhada, atingido pelos efeitos colaterais da dependência do petróleo. No fim, o verdadeiro senhor da guerra continua a ser o barril.

Trump é contra, mas nem tanto assim

Os movimentos recentes de Trump e Xi Jinping mostram que a disputa já vai além do petróleo e do gás. Trata-se do comando da futura matriz energética. Isso ajuda a explicar algumas aparentes contradições da política energética norte-americana. Apesar do ceticismo em relação às alterações climáticas, Trump move-se para garantir acesso a minerais estratégicos essenciais para a economia energética do futuro.

A energia voltou a ser tratada como instrumento de poder. A Venezuela permanece central pelas maiores reservas de petróleo do planeta. O Irão ocupa posição decisiva na geografia energética do golfo Pérsico. Cuba mantém um lugar sensível no Caribe. O Panamá continua estratégico pelas rotas marítimas. Não se trata de ideologia. Trata-se de economia, território, solo e subsolo.

As novas fronteiras energéticas

Nesse contexto, a América Latina voltou ao centro do cálculo estratégico global. O triângulo do lítio, Bolívia, Argentina e Chile, concentra grande parte das reservas mundiais usadas na produção de baterias. O Brasil possui depósitos relevantes de níquel, grafite e terras raras. A Colômbia combina recursos minerais com posição estratégica entre a Amazónia e o corredor energético sul-americano.

A Amazónia emerge assim como um território sensível na nova geopolítica da energia. A região reúne biodiversidade, água, minerais e corredores logísticos entre Atlântico e Pacífico. Essa combinação transforma o território num foco crescente de interesse para potências e corporações globais.

A lógica das disputas por território tende a repetir padrões conhecidos. Narrativas de ameaça e de inimigo externo frequentemente precedem guerras, intervenções ou formas de ocupação indireta. Algo semelhante começa a surgir na América Latina. A linguagem da “guerra contra os cartéis” pode funcionar como dispositivo político para ampliar margens de intervenção em territórios estratégicos.

O pedido norte-americano para que o Brasil classifique o PCC e o Comando Vermelho como organizações terroristas pode ser lido nesse contexto mais amplo. Não se trata apenas de segurança. Trata-se também da construção de categorias políticas que permitem ampliar pressões sobre territórios estratégicos.

Trump não disputa a pobreza desses países. Disputa o que está no subsolo: petróleo para o presente, minerais críticos para a indústria, a defesa e a transição energética do futuro.

A mudança da política norte-americana para minerais estratégicos mostra isso com clareza. Acordos, tarifas, garantias estatais e alianças industriais passaram a tratar lítio, níquel, cobalto, grafite e terras raras com importância estratégica semelhante à historicamente reservada ao petróleo.

Nesse contexto, a Gronelândia reaparece no mapa não apenas pela posição militar no Ártico, mas também pelas suas terras raras. A nova cartografia energética nasce do cruzamento entre geologia e geopolítica. A disputa já não ocorre apenas nos poços de petróleo. Desloca-se para minas e refinarias.

Mudam as rotas, as tecnologias e os minerais. Mas a lógica histórica permanece. A transição energética pode alterar as fontes de energia. Mas não muda a lógica do poder. Quem controla o solo e o subsolo continua a controlar o mundo.

Os textos nesta secção refletem a opinião pessoal dos autores. Não representam a VISÃO nem espelham o seu posicionamento editorial.


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