Inventário do Eclipse: Passos apressados, pela escritora Maria Bravo
Durante dois anos, passei pelo mesmo homem todas as manhãs sem nunca lhe ter visto a cara. Dormia deitado de lado, debaixo da pala do prédio em frente à estação de Entrecampos, embrulhado num saco-cama azul que, com a chuva e o pó dos passeios, se tornou primeiro cinzento e depois de uma cor sem nome. Eu é que tinha deixado de olhar.
No início, reparava em tudo: nos sapatos alinhados junto à cabeça, como se mesmo na rua fosse importante manter alguma ordem; no saco de supermercado que mantinha sempre junto do corpo, perguntando-me muitas vezes o que guardaria ali com tanto cuidado; no hábito de acordar antes das oito, enrolando a cama e desaparecendo antes de a cidade acordar por completo.
Dias houve em que cheguei a pensar em lhe levar café. Não o fiz. Outros em que pensei em lhe perguntar o nome. Também não perguntei. A vida encarregou-se do resto. Ao fim de algumas semanas, o homem passou a fazer parte daquele percurso como a banca dos jornais, o semáforo que demorava demasiado a abrir ou a árvore que todos os outonos entupia o passeio de folhas. O cérebro tem esta habilidade extraordinária de apagar aquilo que não queremos ver sem precisar de o fazer desaparecer.
Na terça-feira em que não o encontrei, dei conta imediatamente. A pala do prédio estava vazia, o chão, mais gasto no lugar onde o saco-cama costumava ficar. Desejei que tivesse encontrado abrigo seguro ou que alguém da Santa Casa o tivesse finalmente convencido a sair dali. Talvez simplesmente se tivesse mudado para outra rua. Agarrei-me ao que desejara, e esse possível final feliz descansou-me durante alguns segundos. O sinal ficou verde, e eu atravessei a passadeira e fui trabalhar.
No dia seguinte, continuava sem aparecer. No seguinte, também. Na........
