Pensamento proibido. Crónica de Margarida Davim
Pedi para ir para a catequese. Os meus pais eram aquilo a que se chama católicos não praticantes. A minha mãe andava com pagelas de santinhos na carteira e rezava quando tinha uma aflição. O meu pai não se metia nisso. E a religião não era propriamente um tema em minha casa, a não ser nas vezes em que a minha mãe decidia perceber outros ritos e lá tínhamos nós mórmons ou testemunhas de Jeová em casa. Mas essa é outra conversa. E eu pedi para ir para a catequese em parte, estou certa disso, por causa da ideia do vestido branco e da festa da primeira comunhão, mas também porque tinha genuína curiosidade. Tive, claro, um vestido com laços cor-de-rosa, feito especialmente para mim, e os avós e primos do Porto num almoço. Mas quando a refeição foi servida e o bolo cortado, já eu tinha decidido que não acreditava em nada daquilo.
Tomei essa decisão definitiva quando percebi que tinha de inventar pecados para a confissão que iria dar-me acesso à hóstia sagrada. Mas era uma coisa que já andava a maturar nas aulas da catequese, enquanto a mente vagueava por dúvidas e eu percebia que esse Deus todo-poderoso não conseguia entrar nos meandros da minha mente de criança. Se eu conseguia mentir na confissão sem que nada me acontecesse, então nada daquilo fazia sentido, concluí eu. E não pensei mais nisso.
A ideia de que ninguém entra na nossa cabeça é uma das armas mais poderosas que se pode ter na infância. Percebi isso cedo. Usava esse superpoder para imaginar outros mundos, viajar sem sair do quarto, inventar histórias e conversas, quando o que estava à volta não me interessava, quando precisava de combater o........
