menu_open Columnists
We use cookies to provide some features and experiences in QOSHE

More information  .  Close

O trabalho está morto. Viva o trabalho! Crónica de Margarida Davim

31 0
01.05.2026

É um homem grande, a cabeça calva queimada pelo sol, os ombros largos, as mãos enormes. Aproxima-se de mim na multidão que, no final da manifestação contra o pacote laboral, se aperta na Rua de São Bento, quase a chegar à Assembleia da República. É vidreiro, apresenta-se. E vem falar-me da luta de operários como ele, sujeitos a trabalhar no verão a temperaturas que chegam a ultrapassar os 70 ºC, num ambiente de enorme ruído, a respirar sílica cristalina cancerígena, com “jornadas contínuas de trabalho que chegam a um mês seguido, podendo estender-se até dois meses ou mais no período de verão, para assegurar férias dos colegas”. Naquele dia, desculpa-se, está engripado. Mas nem por isso faltou à luta, sob o sol ainda baixo de abril, que nos escalda a cabeça. Quer pôr os partidos a perceber a importância de a profissão de vidreiro ser considerada de desgaste rápido, mas sente-se a pregar num deserto quase tão abrasador como a fábrica onde passa os dias.

O operário explica-me como a tecnologia não lhe aliviou a penosidade do trabalho. “Assistimos a uma evolução tecnológica que aumentou significativamente a rentabilidade, mas não teve efeito no número de trabalhadores nem na forma de operar. Ou seja, a tecnologia melhorou a produção, mas não reduziu a exposição humana. Pelo contrário, em muitos casos intensificou-a”, queixa-se. Os fornos não podem parar nunca ao longo dos 15 anos que duram. Os homens vergam-se às máquinas.

Há quem ache que as histórias que falam de operários deviam ser contadas a preto e branco. Eles não existem hoje, acham os que cantam........

© Visão