Mulheres à beira de um ataque de nervos

Chego muito cedo e sozinha à praia. O areal está quase deserto. Uns metros atrás de mim já há, porém, um casal espanhol, cada um sentado numa cadeira debaixo do seu chapéu de sol. “Nunca planeias nada. NUNCA! Ouviste?” O som da voz dela interrompe o silêncio matinal. “Quando foi a última vez que planeaste alguma coisa?”, insiste ela, num crescendo de irritação ao qual ele vai respondendo baixo, o que a deixa ainda mais irritada, subindo a voz até que as suas palavras soterrem as dele, apenas balbuciadas. “Sou sempre eu que planeio tudo”, exaspera-se. E enquanto me levanto para um mergulho, olho de soslaio para trás para os ver. Devem andar pelos 30 anos e, se têm filhos, não os trouxeram para a praia.

Quando regresso do mar, percebo que ele tenta desculpar-se, mas a irritação dela já vai mais alta do que o sol da manhã que aquece. Pega na cadeira e vira-se de costas para ele. “BASTA!!”, grita. “Não quero ouvir-te. Agora não. Dá-me tempo”, atira-lhe, num último fôlego, que é uma espécie de fúria e cansaço misturados na mesma expiração, como se lhe saísse do corpo um peso que arrasta.

Deito-me ao sol. O silêncio não dura mais do que um minuto. “Esta miúda dá cabo da vida a toda a gente!” As palavras são mordidas dentro da boca da mãe, antes de as cuspir. Vem com duas filhas, a mais nova andará pelos 5 ou 6 anos. Não percebo qual delas a irrita, mas a mais velha, que terá uns 12, vai repetindo atrás da mãe: “Estás zangada comigo? Estás zangada comigo?”, numa ladainha um pouco irritante. “Não! Estou zangada com o meu intestino”, responde a mãe. E riem-se um pouco as duas, enquanto a mãe abre o chapéu de sol, monta a cadeira, estende as toalhas, aqui e ali lançando um lamento pelo cansaço que acumula e que as férias não dissipam.

Por um momento, tudo está tranquilo. A mais nova brinca na areia. A mais velha edita um vídeo no telefone. A mãe lê. Só que, entretanto, chega o pai. “Não ias ficar na........

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