Abram os olhos. Vamos juntos

Era uma senhora simpática, com idade para ser minha mãe ou talvez minha avó. O cabelo bem arranjado, as unhas pintadas, um bâton chamativo. Fiquei sentada ao seu lado e rapidamente começou a conversa, com um ar bem-disposto. “Ah, Portugal…”, suspirou. Conhecia bem. Já tinha estado várias vezes em Lisboa e no Porto, tinha passado por Coimbra e por Fátima. Gostava muito de Portugal. Sempre tinha gostado. Mas agora, confidenciava-me, havia mais um motivo para gostar. “É que vocês souberam pôr o Lula no lugar”, disse-me, com um sorriso largo nos lábios. Abri um pouco os olhos, inclinei a cabeça. Não estava bem a perceber. Mas a senhora prosseguiu, explicando-me que tínhamos posto o Presidente do Brasil fora do Parlamento. Não lhe chamou Presidente, claro, era só Lula ou coisa pior, um “bandido”. Não estava mesmo a perceber, insisti. “Foi lá no Parlamento”, explicou-me ela. Nesse momento, fez-se luz: estava a falar das cerimónias dos 49 anos do 25 de Abril.

Eu tinha estado como repórter parlamentar, na bancada da imprensa, na Assembleia da República nesse dia. Lula entrou com honras de Chefe de Estado e discursou. Foi um dia tenso. A bancada do Chega levou cartazes onde se lia “Chega de corrupção” e tentou interromper com pateadas o discurso do Presidente brasileiro, que foi longamente aplaudido de pé pelas bancadas da esquerda, então em maioria no hemiciclo. Cá fora, havia uma pequena manifestação de brasileiros contra Lula e outra, talvez um pouco maior, a favor. Lula da Silva falou até ao fim, foi longamente cumprimentado por vários deputados e cantou-se a Grândola no hemiciclo. “Senhor Presidente, deixe-me pedir desculpa em nome do........

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