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A fome dos deuses dos mercados engole o País

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07.08.2026

Enquanto atravesso a fronteira do Brasil para o Paraguai, o guia fala-me dos índios guarani. Orgulhoso da cultura e da língua – que fala fluentemente e que é, a par do espanhol, a língua oficial paraguaia –, explica-me que o respeito dos guaranis pela natureza e a forma como garantiam a abundância ajudou a formar o mito do brasileiro preguiçoso. “Bastava ficar deitado e esticar o braço para apanhar fruta.” Na verdade, os índios percebiam que, sempre que se tirava alguma coisa à Mata Atlântica, era preciso dar outra de volta. São testemunhas disso as árvores de fruto plantadas pelos guaranis, que ainda hoje resistem como pequenos pomares de citrinos no meio do mato. Também era preciso reconhecer os limites da Natureza. Quando num ponto do rio o peixe começava a escassear, era altura de ir assentar o acampamento noutra zona, para que aquela tivesse tempo de se regenerar.

A sabedoria antiga dos povos da América do Sul contrasta com a nossa enorme ignorância. Não há outra forma de descrever a maneira como insistimos em fazer equivaler “crescimento” e “felicidade”. Na nossa ânsia de fábulas, criámos métricas que adoramos como a deuses. O PIB é o token sagrado, alfa e ómega da civilização. Cálice mágico e salvífico. Em seu nome, fazemos sacrifícios aos mercados, criaturas sedentas, insaciáveis, cegas e irracionais, cuja ira tentamos aplacar, oferecendo-lhes a nossa própria vida e a dos nossos filhos, se for necessário. Vejam como o PIB acaba de crescer 0,8% no........

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