É preciso parar de rir e começar a falar a sério. Crónica de Margarida Davim
“Você é de direita ou de esquerda?”, pergunta o rapaz num vídeo no Instagram. “Eu sou da direita, porque eu odeio o Lula”, responde a mulher, chapéu, cabelo e t-shirt vermelhos, tudo vermelho, atirando para trás o rosto, de mão na ilharga, enquanto responde ao porquê. “Porque ele é ladrão.” “O que é que ele roubou?”, quer saber o rapaz. “É só você saber lá… Até hoje, ele não deu conta do que ele roubou.” A resposta tem tanto de indefinido como de convicto. “Com o que é que você não concorda do governo da esquerda?”, insiste o entrevistador. “Não concordo. Eu sou da direita e vou ser da direita até morrer.” “Mas o quê?” “Ai, meu Deus do céu! Tanta coisa que eu não concordo da esquerda… Das mentiras, do que eles estão fazendo para o Bolsonaro. Não concordo.” “Porque é que prefere o Bolsonaro?” “Porque não é ladrão.” “E é socialista ou capitalista?” “Eu sou socialista.” “Porquê?” “Porque sou.” “Se fosse Presidente, qual seria a sua primeira mudança?” “O sistema.”
Este pequeno vídeo parece uma piada. Tem uma música de filme de comédia como banda sonora e está ilustrado com os memes da moda, que pretendem sublinhar a ignorância da entrevistada. Quase todos os comentários são a apontar o dedo à estupidez da senhora. Ela parece uma piada. Mas o que ela diz é muito sério. E está na altura de começarmos a perceber porquê.
Este vídeo não é uma bizarria. É um sintoma. Há milhares de vídeos idênticos a circular pelas redes sociais. Muitos são pequenas entrevistas a bolsonaristas assumidos e pobres e o Brasil já inventou um hashtag para eles: pobre de direita. Mas também há brasileiros que se dizem “do centro” e têm um discurso aparentemente irracional de ódio às políticas de redistribuição de riqueza do governo Lula, como o “bolsa família” – que dá acesso a........
