Opinião | A diplomacia da distorção: Trump e o risco sistémico da política da ameaça

As declarações recentes de Donald Trump no Fórum Económico Mundial de Davos não surgem no vazio. Inserem-se, antes, num padrão já amplamente identificado da sua atuação no plano internacional: uma combinação persistente de retórica agressiva, simplificação sistemática de realidades complexas, recurso reiterado a dados factualmente incorretos e uma visão estritamente transacional da política externa, que transforma aliados em devedores e instituições multilaterais em entraves. Davos foi apenas o palco mais visível — e simbolicamente mais eloquente — de uma estratégia que se vem consolidando e que levanta preocupações sérias quanto à estabilidade da ordem internacional.

Desde o regresso de Trump ao centro da cena política global, observa-se uma intensificação de discursos que combinam ameaças económicas, revisionismo geopolítico e uma leitura instrumental do direito internacional. A insistência na Gronelândia como um “ativo estratégico” que os Estados Unidos deveriam controlar — ainda que envolta numa retórica ambígua entre compra, pressão política ou tutela informal — é particularmente reveladora de uma conceção de soberania baseada na força e na utilidade imediata, e não no direito internacional ou no princípio da autodeterminação.

A reação negativa da Dinamarca e de vários parceiros europeus não se deveu apenas ao conteúdo da afirmação, mas à normalização implícita de uma lógica que remete para práticas de esferas de influência próprias do século XIX.

Este episódio soma-se a um conjunto mais vasto de declarações igualmente problemáticas. Trump voltou a ameaçar parceiros comerciais com tarifas generalizadas, incluindo aliados históricos, caso estes não se alinhem com os........

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