A Europa e o fim das ilusões estratégicas
Durante mais de três décadas, a Europa viveu convencida de que a paz conquistada após o fim da Guerra Fria era irreversível. A queda do Muro de Berlim, o colapso da União Soviética e o alargamento da União Europeia alimentaram a convicção de que a integração económica, a cooperação política e a interdependência comercial bastariam para assegurar a estabilidade do continente. Convencidos de que os grandes conflitos militares pertenciam ao passado, muitos governos reduziram sucessivamente o investimento na defesa e concentraram recursos no reforço do Estado social, na modernização das economias e na consolidação do mercado único.
A estratégia produziu resultados inegáveis. A Europa conheceu o mais longo período de paz e prosperidade da sua história contemporânea. Mas assentava numa premissa que o tempo acabaria por desmontar: a de que os Estados Unidos permaneceriam como garante permanente da segurança europeia e de que a ordem internacional continuaria a funcionar segundo as regras estabelecidas após a Segunda Guerra Mundial.
A realidade alterou-se de forma profunda. A invasão russa da Ucrânia devolveu a guerra convencional ao continente e expôs fragilidades militares, industriais e políticas acumuladas ao longo de décadas. Em simultâneo, a rivalidade entre Estados Unidos e China deixou de ser predominantemente comercial para abranger tecnologia, energia, cadeias de abastecimento, inteligência artificial e influência estratégica. Washington mantém o compromisso com a Aliança Atlântica, mas deslocou o seu centro de gravidade para o Indo-Pacífico, exigindo aos aliados europeus uma participação mais robusta na sua própria defesa.
Perante este cenário, a NATO iniciou a mais profunda transformação desde o fim da Guerra Fria. O debate já não se resume ao aumento da despesa militar. Trata-se de adaptar a Aliança a um contexto em que as ameaças são simultaneamente........
