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O bode expiatório do costume

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23.06.2026

A afirmação da Ministra da Saúde, segundo a qual a pressão sobre o Serviço Nacional de Saúde resulta, em parte, do aumento do número de imigrantes com médico de família e acesso aos cuidados de saúde, merece ser analisada à luz dos factos e não das perceções.

Portugal registava, no final de 2024, cerca de 1,54 milhões de cidadãos estrangeiros residentes, o valor mais elevado da sua história recente, segundo o Relatório de Migrações e Asilo 2024 da Agência para a Integração, Migrações e Asilo (AIMA, 2025).

Trata-se de uma realidade que transformou profundamente o País e que trouxe novos desafios aos serviços públicos.

Mas uma coisa é reconhecer que uma população maior gera maior procura. Outra, bem diferente, é atribuir aos imigrantes a responsabilidade pela degradação de um sistema que apresenta problemas estruturais há décadas.

A primeira pergunta que se impõe é simples: quantos destes imigrantes têm médico de família? Quantos recorreram ao SNS no último ano? Quantos dos atuais utentes sem médico de família são estrangeiros?

A resposta é desconfortável para quem pretende estabelecer uma relação direta entre imigração e crise do SNS: não existem dados públicos que permitam demonstrar essa ligação.

O Serviço Nacional de Saúde não divulga regularmente o número de médicos de família atribuídos por nacionalidade dos utentes, nem publica estatísticas que permitam determinar quantos atendimentos anuais correspondem a cidadãos estrangeiros. Consequentemente, não é possível afirmar, com base em evidência pública disponível, que os imigrantes sejam responsáveis pelo aumento das listas de espera, pela falta de........

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