As empresas fechadas em si mesmas e isoladas. Um modelo ultrapassado

Na generalidade, as empresas são organizações viradas para dentro, fechadas em si mesmas. Regem-se pelos seus próprios códigos e interesses, focam-se nos seus assuntos internos e nos seus objetivos financeiros. Os fatores externos à empresa só são relevantes quando favorecem ou prejudicam o funcionamento e os resultados da empresa. Esta empresa tradicional não se dá como missão prestar algum serviço às pessoas, às comunidades locais ou à sociedade. Essa não é nem a sua missão nem a razão de ser da sua existência.

As empresas tradicionais não comunicam, nem estabelecem qualquer tipo de relação particularmente relevante com as pessoas, com as comunidades locais ou com a sociedade. Tradicionalmente, tal não faz parte do seu negócio! Quando muito, comunicam com outras empresas e políticos, tendo como único objetivo maximizar os lucros do investimento.

O meio ambiente das pessoas, das comunidades locais e da sociedade não merecem, da parte da empresa tradicional, qualquer consideração ou cuidado particular.

As pessoas e o seu meio ambiente social e natural não são parceiros da empresa tradicional. No entanto, sem pessoas (inclusivamente daquelas que trabalham para a empresa), sem comunidades locais e sem uma sociedade de humanos, não há empresas.

Sem pessoas, não há quem crie, não há quem produza, nem quem consuma.

O mesmo é válido no que diz respeito às matérias-primas de que a empresa necessita. Sem elas, a empresa não existe. Assim parece que podemos concluir que a empresa deixa de fazer qualquer sentido e, pura e simplesmente, se extingue, na ausência de pessoas, comunidades locais e sociedade, sem um meio ambiente saudável para o ser humano

A existência da empresa depende das pessoas, mas, no dia a dia, essa dependência é ignorada.

Parece evidente que o atual modelo de empresa e toda a ideologia de que esta se serve necessitam de alguma reflexão. Isto porque, claramente, as empresas não são assim tão importantes; importantes são as pessoas.

A consequência é que, muito provavelmente, a empresa tem de se reinventar partindo da aceitação da primazia das pessoas (inclusivamente daquelas que trabalham para a empresa), das comunidades locais, da sociedade de humanos e do meio natural destes.

Desta “nova” perceção da empresa faz parte integrante algo que é igualmente do conhecimento geral: investir nas pessoas, nas comunidades locais e na sociedade dos seres humanos é extremamente rentável e saudável. Para além de serem as pessoas que criam, produzem e consomem, tudo o que elas fazem, fazem-no extremamente bem e com prazer, quando são bem tratadas, quando são saudáveis e quando dispõem de um meio ambiente não tóxico.

Por fim, é necessário acabar, definitivamente, com as hostilidades permanentes entre a empresa e as pessoas, as comunidades locais, a sociedade de humanos e o seu meio ambiente natural. Esta hostilidade, tão tradicional e cultivada por muitos, não se justifica, não é rentável, nem saudável!

A nova empresa é um instrumento, humanizado e digno de confiança, ao serviço do ser humano e do bem-comum.

– reconhece a dignidade e a humanidade das pessoas, das comunidades locais e da sociedade, e comporta-se em conformidade. Ou seja, a nova empresa elimina todas as políticas e comportamentos empresariais que a prejudicam e traumatizavam o ser humano;

– é humanista, tem as portas abertas e faz parte das comunidades locais e da sociedade;

– impõem-se, a si mesma, limites ao consumo de matérias-primas naturais e à produção de lixo e materiais tóxicos.

Não façam mais mal às pessoas!

Aumentar a maior parte dos salários é urgente e importantíssimo, mas nem é isso, provavelmente, o mais urgente e importante. A situação degradou-se de tal forma que as pessoas já não conseguem dormir ou respirar com as preocupações, o desânimo, o stresse e a angústia que sentem. É urgente que as empresas abram as portas às pessoas, às comunidades locais e à sociedade, e criem parcerias, políticas e protocolos que a todos beneficiem, de imediato.

As pessoas que trabalham não são trabalhadores, são pessoas, que têm a particularidade de trabalharem.

Os textos nesta secção refletem a opinião pessoal dos autores. Não representam a VISÃO nem espelham o seu posicionamento editorial.


© Visão