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Uma casa verdadeira

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20.03.2026

O que é uma casa? O que a define? Mais especificamente, o que é a nossa casa? Como se sabe isso? Em que momento um conjunto de divisões, corredores, portas e janelas deixa de ser um sítio onde se vive para passar a ser o lugar de onde se vem? Tenho umas impressões vagas sobre o assunto. Umas intuições que terão mais a ver com objectos, memórias e decoração de interiores do que propriamente com plantas ou projectos de engenharia.

Imaginar-se-ia que um arquitecto pudesse responder com maior segurança. É o mais natural, tratando-se de quem passa a vida a desenhá-las, como se supõe que um padeiro saberá de regueifas ou um compositor de canções. Mas não. Pelo menos um bom arquitecto, não. Eduardo Souto Moura, nosso príncipe das justas proporções, diz que não sabe. E que, se soubesse o que é uma casa, não continuaria a trabalhar em arquitectura. Isto é admirável.

Imaginamos assim, nesta resposta de Souto Moura, que a casa a que sempre regressa em cada desenho é uma espécie de resposta incompleta e persistente à vida humana. Um enigma que o acompanha, como o velho viúvo diante do retrato da mulher. Uma procura da verdade. E por isso, talvez, as respostas possíveis estejam menos na promessa de um desenho do que naquilo que o desenho vem depois a conter.

Não é preciso mandar projectar uma casa para que a casa diga quem somos. Se assim fosse, só quem tivesse dinheiro para contratar um arquitecto, mandando-a desenhar de raiz, escolhendo a pedra, as aberturas para a luz, as caixilharias, ou o modo exacto como deseja existir entre paredes, poderia aspirar a um abrigo que o revelasse. Tenho para mim que, na maior parte desses casos, a casa acaba por dizer menos acerca de quem a habita do que acerca das suas possibilidades, das modas do tempo ou de uma certa facilidade material que tende a amortecer as marcas mais radicais do carácter. Não é certo que o espírito se exprima com maior eloquência quando dispõe de mais meios. Pode dar-se que a abundância o neutralize, o torne menos nítido, menos obrigado a escolher, menos exposto.

Com isto não pretendo beatificar a pobreza. Mas a casa possível, a casa imposta, a casa adaptada, fala. E fala com uma franqueza que, por vezes, a casa de autor não alcança. Fala na falta de espaço. Fala na mobília recebida. Fala na divisão improvisada. Fala na humidade que reaparece sempre na mesma intersecção da mesma parede com o mesmo tecto. Fala na sala onde se tricota, se janta, se fazem os trabalhos de casa, se toca piano, se adormece no sofá entre os brinquedos espalhados e as caixas partidas dos cdês ou os jornais semi-lidos. E fala no corredor estreito, no crucifixo torto, no “quarto da Emília” que continua a chamar-se assim trinta anos depois de a Emília ter morrido. Tudo isso fala. E o que diz não é apenas pobreza ou classe média. Diz resignação, brio, pudor, disciplina, gosto possível, ordem arrancada aos apertos da vida.

E, quando não há sequer margem para escolher, isso também diz qualquer coisa, nem que seja da violência das condições em que se vive.

Mas há depois outra espécie de casa. Aquela que deixa de ser apenas expressão de um habitante e passa a ser expressão de uma família no tempo. Não são necessariamente as mais belas. Nem sempre as maiores. Mas são as que determinam um caminho. São as que pesam; as que mandam.

Porque uma casa é também aquilo que se recebe e aguenta; o que se conserva ou se deixa perder. A casa dos nossos avós, a casa onde se cresceu, a casa onde certas vozes falaram antes de lá chegarmos; e por lá continuam; a casa que se construiu quando ali ainda era só mato rasteiro. Uma casa assim não é só um sítio onde se vive, é uma vida, muitas vidas. Representa uma linhagem, mesmo que modesta. Nas paredes, nos móveis, no que se vê pelas janelas, nas repetições, até na vizinhança. Na maneira como a luz bate àquela hora, naquela coluna. Uma casa assim deixa de ser apenas casa. Passa a ser sede.

Haverá aqueles para quem a casa herdada é um bem. Um encargo. (Escrevo “bem” para não escrever “activo”, palavra odiosa que traduz com exactidão financeira o que o texto tenta recusar.) Mas há outros para quem a maneira de receber essa herança, de a habitar, de a modificar o menos possível, de a transmitir intacta, já é uma forma de expressão. A pessoa exprime-se precisamente na maneira como se submete a algo que não começou nela. Isto, hoje, parece incompreensível, porque vivemos na superstição segundo a qual a personalidade só existe quando deixa a sua marca inédita no mundo. É mentira. Há naturezas cuja manifestação mais alta está na fidelidade. Na custódia. Na continuação. Na disciplina de não estragar.

São essas casas que custam vender. Porque, quando isso acontece, é um centro de gravidade que está prestes a dissolver-se. Um elo de uma cadeia que se rompe. Sobretudo quando a casa não era apenas onde vivíamos, mas de onde vínhamos. É como se se derrubasse um carvalho.

Não sei responder à pergunta de Souto Moura, nem me passa pela cabeça armar-me em iluminado. Mas atrevo-me a suspeitar que uma casa verdadeira não se reconhece pelo que pode valer, mas pelo mundo que leva consigo quando desaparece.

Manuel Fúria é músico e vive em LisboaManuel Barbosa de Matos é o seu verdadeiro nome

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