Sr. Gouveia |
Ontem, no Intercidades — esse comboio admirável que não só nos leva ao destino, como também a outro tempo — entrou uma senhora sem bilhete. O episódio foi mínimo, como são quase sempre as revelações. — “Então não sabe que aqui é preciso reserva de lugar?”, perguntou o revisor. A senhora explicou-se. Vinha de Vizela, de um tratamento termal; tinham-lhe dito não ser necessária a reserva, desde que saísse no Porto; insistia e tudo soava mal. Toda a gente na carruagem percebeu o problema. Mas, por uma dessas branduras que ainda resistem, o revisor resolveu ser benigno. Caso contrário, teria de lhe exigir, ali mesmo, 125 euros. A notícia abateu-se sobre a senhora como um tecto. Ficou consternada. E então o revisor, sorridente, rematou: teve sorte em não ter apanhado o Sr. Gouveia.
A senhora lá saiu em Campanhã. Nós continuámos para Santa Apolónia. A viagem prosseguiu, mas o Sr. Gouveia ficou.
O Sr. Gouveia não era apenas um revisor mais severo. Não era só um funcionário mais exacto, mais fiel ao regulamento. Chamá-lo zelota........