Reza II ou a saudade como forma de disciplina. Crónica de Manuel Fúria
O problema com os republicanos — chamemos-lhes assim, por economia de linguagem — não é terem má imaginação. É não a terem de todo. É natural, por isso, que lhes escapem certas realidades que qualquer criança reconhece intuitivamente. Príncipes, dragões, dinastias ou exílios. A infância aceita sem esforço o que o republicano desaprendeu. E quando lhes aparece alguém como Reza Pahlavi pela frente, tomam-no por um artefacto genealógico. Não percebem nada.
Há na saudade uma espécie de disciplina. Como se, quanto mais longe do que amamos, mais perto disso ficássemos. É uma coisa que se percebe com clareza em lugares como o Ironbound, em Newark, mais português do que muita capital de distrito do nosso belo Portugal. Reza Pahlavi — pretendente ao trono da Pérsia e exilado nos Estados Unidos — torna esse paradoxo especialmente vivo.
Em primeiro lugar, e para não mostrar favoritismos, concedo. Concedo que, quando os comentadores televisivos dizem “ele já não vive lá há décadas; que sabe ele do terreno?”, não estão a dizer um disparate qualquer. A objecção é séria. E as objecções sérias não se espantam com um abanão de monárquico ofendido. Não basta responder-lhes: “vocês não percebem nada de reis” — embora não percebam. Nem basta ridicularizar esta tara contemporânea pelo terreno, sempre o terreno, como se fosse preciso trazer lama na sola dos sapatos para merecer a pátria. É preciso desmontar a esperteza.
Não que seja saloia. É só pobre no critério. Falha porque parte do princípio de que a proximidade física esgota a preparação para servir uma comunidade política. Isso pode valer para um técnico municipal, para um deputado ou para um presidente de junta. Não basta para perceber a natureza de um príncipe herdeiro. Para ele, a distância só agrava a missão.
Tome-se Simeão da Bulgária. Subiu ao trono com seis anos, e foi deposto pelo regime comunista dois anos depois, em 1946. Em 2001, cinquenta e cinco anos mais tarde regressou, a pedido do povo búlgaro, e tornou-se primeiro-ministro. O homem que saiu da Bulgária sem idade para saber o preço do pão voltaria duas vidas mais tarde não para servir de enfeite — como se julga que um rei, hoje, serve —, mas para governar. Os republicanos, com a sua imaginação de repartição pública, gostam de supor que só está apto para estas coisas quem está a par da cotação do gás, do trânsito da capital ou das flutuações de humor das centrais sindicais. O caso de Simeão desmente-os. A reserva de continuidade que ele encarnava revelou-se bastante não apenas para simbolizar uma nação, mas até para exercer o poder executivo.
Fui longe, mas poderia ter feito apenas duzentos quilómetros até Badajoz. Juan Carlos, para todos os efeitos um grande rei, nasceu em Roma, passou a adolescência em Portugal e voltou para acabar no centro da história espanhola.
É aí que esta gente se distingue do resto da humanidade política. O herdeiro dinástico no exílio não é um candidato vulgar. Não irrompe numa crise por oportunismo. Não se improvisa. Não se atira para a ribalta. É moldado desde cedo por uma expectativa de regresso e serviço. Já está na ribalta, queira ou não. O exílio não é, por isso, um corte. Pelo contrário, é uma forma obsessiva de presença.
No caso de Reza Pahlavi, o ponto nem sequer é saber se amanhã haverá restauração na Pérsia. O ponto é anterior. É perceber que ele não pode ser lido com as categorias estreitas reservadas para um qualquer oposicionista. Representa, para muitos iranianos, a memória de uma Pérsia milenar, anterior à teocracia e ao fanatismo de Estado. Pode não bastar. Pode até nunca acontecer. Mas é intelectualmente indigente tratá-lo como um mero expatriado de apelido sonante.
E depois há a leitura preguiçosa segundo a qual Reza seria apenas a continuação mecânica do pai. Pior: do pior que se diz do pai. Não é sério. Sempre que se fala da Pérsia do Xá, cai-se numa espécie de orientalismo de opereta, mais ou menos autoritário, mais ou menos exótico. Ao contrário da maquinaria de delírio fanático que lhe sucedeu, o regime deposto mantinha uma ideia civilizada de país. Não vivia da pulsão apocalíptica, nem da necessidade ritual de fazer da destruição de Israel um princípio escatológico. Havia uma ambição de ocidentalização e de democratização gradual. O erro do Xá terá sido aquele que entre nós se atribui a D. Carlos com João Franco: o de acreditar que uma suspensão temporária da mecânica parlamentar salvaria alguma coisa. Pagou por isso com a fama de ditador. Como se os simplificadores da história precisassem sempre da mesma palavra curta para não terem de pensar pela própria cabeça.
Quando morreu no Cairo, o filho passou a ser, de jure, Reza II. Pela simples razão de que o pai não abdicara. Fora deposto e expulso. Desde então, Reza vive no exílio, mas com a Pérsia no espírito e no horizonte. Há quem nasça pronto para a glória. Há quem nasça pronto para a desgraça, que é uma forma muito mais séria de vocação.
No fundo, a questão é simples. Não se trata de saber se Reza Pahlavi conhece o Irão como um topógrafo conhece o relevo urbano. Trata-se de saber se há homens para quem viver longe da pátria é apenas uma maneira mais dura de a servir. Os republicanos não percebem isto porque também deixaram de perceber a saudade. E quem não percebe a saudade não percebe grande coisa do homem.
Manuel Fúria é músico e vive em Lisboa.Manuel Barbosa de Matos é o seu verdadeiro nome.
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