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O apetite dos impacientes

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06.03.2026

E não é que a sala do Fórum Lisboa — lugar que serve a Assembleia Municipal de Lisboa desde 1997 — vai passar a chamar-se “Sala António-Pedro Vasconcelos”? A proposta veio da própria Mesa, pela mão do seu Presidente, André Moz Caldas, deputado do Partido Socialista. Foi aprovada por quase toda a gente. Houve, porém, quem se abstivesse. Não digo “que escândalo”: digo antes “que prudência”.

Bem. Se era para dar um nome inspirador à sala, haveria certamente melhor. “Preto e prata”, no Estoril, é um óptimo nome. “Sala dos Conjurados”, no Palácio dos Almadas, também. Mas o proponente será certamente um homem mais dado ao protocolo regimental do que à poesia onomástica.

Mas não é esse o ponto.

Há uma frase que a direita devia escrever vinte vezes no quadro de ardósia, todas as manhãs, logo a seguir ao pequeno-almoço enquanto mastiga o pão com manteiga e engole a impotência simbólica: “A esquerda sabe”. Sabe — como sabe quem domina a liturgia institucional — que o poder não vive apenas de leis, mas de hábitos e palavras, um pequeno baptismo de cada vez. Sabe também que quem nomeia o espaço público cola-se a ele como uma nódoa que nunca mais sai. E sabe isto: amanhã alguém dirá “na Sala António-Pedro Vasconcelos” com a mesma naturalidade com que pede um café. E nesse momento estará cumprida a ideologia.

A direita, enfim, finge que não é nada com ela. Faz de conta. Põe aquele ar de quem está acima disso. E é assim que perde nestas coisas. Quando a esquerda baptiza, a direita boceja. E bocejar é o acto político mais suicida que existe. Sobretudo quando o bocejo vem disfarçado daquele medo paralisante de ser vista como “contra a cultura”.

Dir-me-ão: “e então, qual é a crise com o nome?”. Não lhe chamaria “crise”. Não estamos a falar de uma guerra nem de uma peste. É antes isto, que é pior: um pequeno gesto. Como quando um frade agostiniano se lembrou de afixar um papel na porta de uma Igreja em Wittenberg.

Ora, se o nome fosse dado a uma escola de artes, a uma sala de cinema, a um arquivo cinematográfico, o mais provável seria encolher os ombros (mesmo não sendo dado a encolher os ombros). Num país como o nosso, de produção curta e memória mais curta ainda, até os realizadores sofríveis acabam por merecer o seu cantinho. É a nossa maneira de sermos pequenos com solenidade.

Mas a sala — apesar de estar equipada para o efeito e de ter sido, em tempos, o Cinema Roma — é um lugar onde se faz política. E António-Pedro Vasconcelos foi um socialista da pesada. Daqueles que, de dois em dois anos, se insurgiam contra a privatização da RTP. Foi um dos artífices da campanha presidencial de Mário Soares em 1986. Em termos de “neutralidade simbólica”, não estamos, propriamente, diante de uma figura exemplar. Só não vê quem não quer. E quando a facção dá nomes a salas, a sala passa a ser, simbolicamente, uma filial.

No que se chama “cultura” em Portugal, o difícil é não tropeçar na politização. É quase uma condição de entrada, um petit fléau dos tempos. Por isso, até pode suceder que o próprio PS nem tenha dado pelo evidente, tomando por natural o que lhe é natural. O que nos diz menos sobre o partido e mais sobre a qualidade melancólica do ar que nos é dado respirar.

Insistirão: “mas o que importa o nome de uma sala?” Uma cidade constrói-se não por grandes discursos, mas nos pequenos actos repetidos, nas suas pequenas naturalidades. Em dizer “Marquês de Pombal” como sinónimo de festa, por exemplo, tornando mais difícil a um pai explicar aos filhos que a figura de bronze que do alto do pedestal nos contempla, ali mesmo no umbigo de Lisboa, foi um tirano sanguinário. É assim que, através de uma pedagogia invisível, o cidadão se vai habituando a tomar certos nomes como os nomes certos.

Descobri há pouco tempo que, segundo as regras de toponímia, há um período de cinco anos entre a morte de alguém e a possibilidade do seu nome vir a ser dado a uma rua. “Finalmente, um reflexo de salubridade neste país!”, pensei. É uma daquelas raríssimas excepções em que a burocracia, por acaso, coincide com a sensatez. Cinco anos são a medida justa para que o tempo tempere os ânimos e o juízo ganhe as devidas distâncias.

António Pedro Vasconcelos morreu em 2024. São dois anos. Ainda se ouvem lá ao fundo os ecos do velório e já estão a pendurar o nome do senhor numa parede. É ainda muito cedo. Para louvar, para criticar, para seja o que for. Mas é como se os nossos políticos padecessem do apetite dos impacientes e não perdessem um momento para impor a sua visão do mundo sobre os demais.

João César Monteiro — genial até na arte de coleccionar alcunhas maldosas — chamava a António-Pedro Vasconcelos “o Comprimento Inútil”. Já o PS chamou-lhe um figo: precisamente o contrário. Um nome proveitoso para ganhar ainda mais largura no espaço público.

Chamem-lhe arte de fazer política ou grau zero de cinefilia: foi, com todo o desembaraço, uma coisa e outra ao mesmo tempo. E, na pior das hipóteses, o PS orientou ali mais uma ocasião para se ir confirmando a si próprio no quotidiano lisboeta. O que não é pouco.

Manuel Fúria é músico e vive em Lisboa.Manuel Barbosa de Matos é o seu verdadeiro nome.

Os textos nesta secção refletem a opinião pessoal dos autores. Não representam a VISÃO nem espelham o seu posicionamento editorial.


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