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Epstein, o Sujeito A, e Ned Flanders entram num bar

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27.02.2026

Nada surpreende no caso Epstein. Nem sequer o adjectivo “sórdido”, que uso sem grande convicção, como quem já não sabe muito bem o que deve causar espanto. É quase um destemor da parte deste moralista empedernido que vos escreve. Apesar de, até hoje, apenas Ghislaine Maxwell e Epstein terem sido formalmente acusados de envolvimento de tráfico sexual, no dia em que algum dos poderosos chefões, que surgem todos os dias nas manchetes, cair, ficaremos como estamos: na mesma. Nada nos chocará verdadeiramente. Já vivemos na vulgaridade. O problema, irmãos — permitam-me a paroquialidade —, não é o crime extraordinário, mas a trivialidade do extraordinário. É aí que vivemos.

Mas há quem ainda não viva. Não é preciso uma ilha nas Caraíbas para sentir o clima moral de uma época. Basta uma sala de estar num Sábado à noite. São esses os serões em que, cá em casa, fazemos uma noite de cinema com os mais velhos. Nada mais prosaico. Nada mais burguês.

Nem sempre vemos o grande cinema. O que é um erro. Das vezes em que decidi escolher um filme de quando era pequeno — naquele impulso doméstico de resistência que é procurar um chão comum — dei-me mal. Cada tiro, cada melro. Descubro agora, nas comédias familiares dos anos oitenta e noventa, pequenos tratados de malícia que me obrigam a pigarrear no sofá. É como se esses filmes tivessem mudado de lugar dentro de mim. Até o Cinema Paraíso, irmãos. Trinta anos depois, percebo que a inocência era minha. Ali mesmo, à superfície daquela hipertrofia nostálgica. O ecrã nunca foi casto. Eu é que era.

Não é que o mundo esteja feio. Está desarrumado; naquele ponto de rebuçado que um dia teve o rosto de Travis Bickle.

Dir-se-ia que exagero. Talvez. Considero a hipótese. Lá ao fundo, um cartaz num descampado. Tem escrito: “As Vaginas e Eu / com Teresa Guilherme”. Dia 8 de Março, no Coliseu de Lisboa. Mais à frente, uma bomba da Galp.

Entretanto, à boleia de um jogo que deveria ter ficado na memória por outros motivos, ergueu-se um coro global contra o racismo. Não se falou noutra coisa. E é justo. Racismo é do mal em qualquer circunstância.

Mas repararam que a coreografia obscena junto à bandeirola de canto que espoletou a tensão foi tratada como expressão de personalidade? A palavra alegadamente proferida — cujo teor exacto, contexto e intenção pertencem às instâncias competentes apurar — transformou-se numa sentença moral instantânea na praça pública. Estão a ver a assimetria? O sujeito A emula fornicação como acto celebratório. O sujeito B profere um insulto. Um denuncia discriminação; o outro alega excesso interpretativo. Mas deixemos de lado a nabice dos protagonistas: o que está em causa é a assimetria.

Parece-me ser da mais elementar razoabilidade considerar a hipótese de que uma palavra cuspida no calor competitivo de um jogo de futebol não equivale automaticamente a uma cosmovisão organizada. Que o campo de futebol é um lugar onde homens dizem o pior que lhes ocorre. E que a civilização não consiste em fingir que isso deixou de existir, mas em saber medir. Em trocar a utopia pela prudência. E que não é uma idealização de pureza que nos deve mover, mas a justa medida — como diria Aristóteles — essa difícil arte de dar a cada coisa o seu tamanho. Mas isto sou eu.

Já o mundo moderno concede quase tudo, menos a dúvida. Há brutalidades e brutalidades. Umas entretêm, as outras condenam. Numa inversão que já não distingue grosseria, gravidade, estupidez humana e perversão estrutural.

O pecado sempre existiu. Na semana do mundo, isso é uma Segunda-feira de manhã. A decadência é outra coisa. É quando já não se sabe o que é apenas humano, o que é grotesco e o que é verdadeiramente intolerável.

Provavelmente é isso que inquieta este Ned Flanders que vos escreve: o facto de o mundo ter desaprendido a arte — nobre e antiga — de corar. E uma civilização que já não cora perdeu o sangue.

Manuel Fúria é músico e vive em Lisboa.Manuel Barbosa de Matos é o seu verdadeiro nome.

Os textos nesta secção refletem a opinião pessoal dos autores. Não representam a VISÃO nem espelham o seu posicionamento editorial.


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