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Viagem a Portugal. Crónica de Luís Leite

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saturday

Senti aquela vertigem quando percebi que tinha organizado toda a minha vida para que chegar a um lugar fosse apenas partir dele novamente. Estava sentado num avião entre duas cidades a que, durante anos, aprendi a chamar casa sem conseguir pertencer inteiramente a nenhuma delas. Dez anos fora. A sensação de estar sempre a chegar e sempre a partir.

Olhei à volta. A mulher ao meu lado tinha as mãos presas ao cinto. À frente, um homem fazia contas invisíveis no apoio de braços. Quando o medo entra num avião, torna-nos a todos parecidos. Durante aqueles minutos, ninguém pensa no destino. Pensamos apenas em chegar, seja aonde for. O avião balançava. A asa esquerda descia, depois subia. As luzes do corredor vacilavam ao ritmo da turbulência. E ocorreu-me que talvez não fosse o vento. Talvez fosse o país lá em baixo a sacudir-nos, a verificar os documentos, a decidir quem ainda lhe pertence.

O céu abriu lentamente as pálpebras de algodão. Entre elas surgiu Lisboa, espalhada em pequenos........

© Visão