Quem mexeu nos papéis do Ventura?
Portugal acordou nesta terça-feira com uma inquietação que nem o preço dos combustíveis, nem os incêndios, nem a história dos exames ou do atrelado, nem sequer o estado da saúde pública conseguiram provocar: alguém terá entrado no gabinete de André Ventura, na Assembleia da República, remexido armários, espalhado documentos pelo chão e levado, segundo o próprio, papéis e pen drives relacionados com o ministro da Administração Interna, Luís Neves, e com o gabinete do primeiro-ministro. A Polícia Judiciária foi chamada ao Parlamento e iniciou diligências. Segundo Ventura, as portas costumavam ficar abertas e a chamada “zona nobre” do edifício não dispunha de câmaras de videovigilância. O resto pertence à investigação e à sempre próspera indústria nacional da suspeita.
A cena, vista nas imagens divulgadas pelo líder do Chega, tinha qualquer coisa entre o assalto político, uma mudança de casa feita à pressa e o quarto de um adolescente depois de procurar desesperadamente o carregador do telemóvel. Pastas abertas, papéis no chão, gavetas revolvidas. Faltava apenas uma janela a bater com o vento e um inspetor da Judiciária de ar ressacado, escondido atrás de uns Ray-Ban, a pedir que ninguém tocasse em nada, quando já toda a gente tinha fotografado tudo, filmado tudo e publicado tudo nas redes sociais.
Ventura classificou o caso como sendo de “muita gravidade”, tal como o primeiro-ministro, e relacionou o alegado furto com o anúncio, feito dias antes, de que tinha documentos importantes para uma comissão parlamentar de inquérito. É uma associação politicamente irresistível: primeiro anuncia-se material explosivo; depois, o gabinete aparece revolvido; por fim, nasce um thriller em São Bento, onde o mordomo não existe, o culpado ainda menos, mas toda a gente tem um telemóvel pronto para transmitir em direto.
Não sabemos quem entrou. Não sabemos exatamente o que levou. Não sabemos se procurava documentos, pen drives, uma prova comprometedora ou simplesmente o agrafador mais cobiçado da República. Sabemos que a Polícia Judiciária investiga e que convém esperar pelos factos antes de escolher o culpado e reservar a primeira fila para os habituais comentadores das televisões. Mas pedir prudência à política portuguesa é como pedir silêncio a uma claque: uma ideia........
