Sumários ou salários? O pântano da desconfiança na Educação portuguesa |
Há um cheiro acre nas escolas portuguesas. Não é o dos marcadores de quadro branco, nem o das fotocópias ainda quentes. É o odor metálico da desconfiança institucionalizada. É o fedor da repressão disfarçada de “modernização”. É a podridão silenciosa de um sistema que, em vez de cuidar dos seus professores, os transforma em alvos de vigilância burocrática — como se cada aula fosse um ato suspeito, e não um gesto de esperança.
A mais recente demonstração dessa lógica punitiva veio do próprio ministro da Educação, Ciência e Inovação: doravante, o registo dos sumários nas plataformas digitais deixou de ser um mero instrumento pedagógico para se tornar condição sine qua non do pagamento salarial. Ou seja: se um professor, por cansaço, doença, sobrecarga ou simples esquecimento humano, não carregar o seu sumário até ao fim do mês, corre o risco de ver o seu vencimento ameaçado. Como se ensinar fosse uma transação contabilística e não um encontro entre saberes, afetos e futuros.
Mas vamos recuar um instante. O que é, afinal, um sumário? Na sua essência — aquela que os burocratas parecem ter esquecido —, trata-se de um........