O Estrangeiro que intriga: François Ozon reinterpreta Camus a preto e branco. Por José Paulo Santos |
Albert Camus — escritor, filósofo e jornalista franco-argelino — permanece como uma das vozes mais lúcidas do século XX. Mais do que um mero pensador do “absurdo”, foi um moralista inquieto, um humanista crítico, cuja obra — entre romances, ensaios, peças teatrais e artigos incisivos no jornal “Combat” — nunca deixou de perguntar como viver com dignidade num mundo desprovido de respostas divinas. É nesse contexto que nasce O Estrangeiro, o romance que, desde 1942, continua a perturbar, a dividir e a convocar leitores para um confronto íntimo com a liberdade, a verdade e a hipocrisia social.
Adaptar Albert Camus ao cinema é um desafio arriscado. Com O Estrangeiro, François Ozon enfrenta um texto reputado inadaptável e escolhe a via da sobriedade extrema: filmagem em preto e branco, no formato 4:3 — que enquadra os corpos como se fossem presos entre paredes invisíveis —, direção de atores milimétrica e uma escrita visual centrada no absurdo, não na psicologia. Apresentado em competição na Mostra de Veneza em 2025, o filme assume uma rigidez formal que não é frieza, mas fidelidade ao espírito do romance.
No cenário de Argel, na costa mediterrânica, em 1938, o relato segue Meursault, um empregado de escritório discreto e aparentemente anónimo, cuja vida muda após um evento trágico numa praia sob um sol ofuscante. Ozon filma esse homem sem afetos, desligado do mundo que o rodeia, com uma precisão quase clínica. A história, feita de gestos banais e de silêncios eloquentes, mostra um ser que atravessa os acontecimentos sem procurar dar-lhes sentido — nem antes do crime, nem depois do julgamento. Não há introspeção, nem arrependimento, apenas a constatação nua e crua de uma existência que se esgota no presente.
Para quem, como eu, leu Camus em francês ainda na adolescência, e que nunca mais esqueceu, O Estrangeiro não foi apenas uma descoberta literária, mas uma experiência quase existencial. Meursault não é um monstro, nem um santo: é um homem que se recusa a mentir. E é essa recusa — tão simples quanto subversiva — que Ozon o coloca no centro do seu filme. Não o retrata como um símbolo abstrato do absurdo, mas como um corpo concreto, atravessado por luz, calor, violência colonial e o peso do julgamento social.
Numa entrevista ao Lire Magazine (nº 546), e conforme confirmado pelo site Sortir à Paris(.com), Ozon revela ter trabalhado com cartas inéditas de Camus e com testemunhos de argelinos sobre a época colonial. “Queria reequilibrar o silêncio em torno do ‘árabe’”, diz. Trata-se de uma escolha ética que não distorce o ponto de vista do romance — mantido fielmente na subjetividade de Meursault —, mas amplia o quadro histórico, conferindo contornos reais àquilo que, em 1942, permanecia deliberadamente indeterminado.
O realizador inverte ainda a estrutura do romance. Se Camus abre com a frase inesquecível “Hoje, a mamã morreu”, Ozon começa com Meursault já preso, repetindo como um eco sinistro: “Matei um árabe.” Essa inversão transforma o espetador num juiz — mas também num réu. Porque o filme não nos convida apenas a julgar Meursault; obriga-nos a reconhecer os mecanismos pelos quais qualquer sociedade condena quem se nega a representar os seus rituais de dor, culpa e redenção.
Crucialmente, Ozon não moraliza Camus. Não oferece redenção fácil a Meursault, nem o transforma num herói progressista. Antes, expõe a lógica implacável do julgamento social: não é o ato que condena, mas a atitude. “Não é o estrangeiro que me interessava”, afirma Ozon, “era o homem que recusa desempenhar o papel que lhe é imposto.” E essa recusa — tão cara ao pensamento de Camus — é, em última instância, um ato de liberdade.
É verdade que Camus nunca escreveu a frase apócrifa tão citada — “nada é mais importante do que a liberdade de pensar”. Mas o espírito dessa ideia atravessa toda a sua obra. Em O Homem Revoltado, define a revolta como o “não” que funda a dignidade humana. Nos seus artigos, defende que “não há liberdade sem verdade, nem verdade sem liberdade”. E, ao receber o Prémio Nobel, em 1957, insiste que o dever do escritor é testemunhar, mesmo quando isso o torna incómodo. Ozon, nesse sentido, é um herdeiro fiel: não oferece consolo, mas exige lucidez.
O resultado é um filme austero, exigente, profundamente humano. E talvez por isso mesmo, urgente. Num tempo em que a diferença é punida, em que a indiferença é confundida com frieza e em que o pensamento crítico é frequentemente calado, O Estrangeiro de Ozon surge como um espelho incómodo — mas indispensável, talvez cada vez mais.
O Estrangeiro, de François Ozon, com os atores Benjamin Voisin, Rebecca Marder e Pierre Lottin, está em exibição nos cinemas franceses desde 5 de novembro de 2025. Uma obra que não deve ser apenas vista, mas debatida — porque, tal como Camus nos ensinou, pensar por si mesmo é o primeiro gesto de resistência.
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