Nas tempestades de Portugal: A sabedoria que o ódio esquece |
O ódio é um discurso fácil: não exige escuta, não pede paciência, não constrói pontes — apenas muros e inimigos. Mas quando a tempestade Kristin varreu o Pinhal de Leiria e deixou casas sem teto e almas sem chão, o País revelou a sua verdadeira geografia: não a dos mapas partidários, mas a dos corpos que se aproximam sem perguntar a cor do passaporte, a dos braços que se cruzam para erguer o que caiu. A unidade não é consenso — é a coragem de permanecer humano quando tudo desaba.
“Nem amar, nem odiar: eis a metade de toda a sabedoria. Não dizer nada e não crer em nada: eis a outra.” A frase, atribuída a Schopenhauer, paira como um enigma. E, no entanto, há nela um perigo subtil: a tentação da indiferença como refúgio. Schopenhauer, na verdade, jamais defendeu a anestesia moral. Ao contrário — na sua “Ética”, é a Mitleid, a compaixão, o único sentimento que nos redime da voragem da vontade cega. Não é na ausência de afeto que reside a sabedoria, mas na sua purificação: amar sem possessão, compreender sem julgamento, agir sem ódio.
É precisamente esse equívoco — transformar a serenidade em indiferença, a prudência em cinismo — que alimenta hoje os discursos da desunião. A extrema-direita não propõe ideias; oferece ressentimento embrulhado em bandeira. Não constrói projetos; erige muros de........