Cuidado: Os livros infantis são perigosos
Inspirado pelo artigo de opinião “Pensamento proibido”, de Margarida Davim (VISÃO, n.º 1743, 30 de julho de 2026).
Há artigos que terminam quando viramos a página. Outros continuam a escrever-se dentro de nós durante dias. Foi o que me aconteceu esta manhã ao ler “Pensamento proibido”, o notável artigo de opinião de Margarida Davim publicado nesta edição da VISÃO. A sua reflexão sobre a crescente suspeita lançada sobre o pensamento livre conduziu-me, por um desses desvios inesperados que apenas a leitura sabe provocar, às prateleiras mais coloridas das livrarias. Enquanto tantos discutem a censura das ideias na esfera pública, apercebi-me de que os objetos mais subversivos continuam expostos ao alcance das mãos das crianças, organizados por idades, ilustrados com animais sorridentes e vendidos como simples instrumentos de aprendizagem. Foi então que compreendi o perigo. Os livros infantis são extraordinariamente perigosos.
Basta observar o que fazem. Sob a aparência de um álbum ilustrado, escondem uma sofisticada engenharia da liberdade. Ensinam uma raposa a dialogar com uma galinha, atribuem dignidade a um lobo, concedem voz a uma árvore, fazem um gigante reconhecer os próprios erros e mostram que um rei pode caminhar nu diante de um povo incapaz de dizer a verdade. Tudo isto parece inofensivo, mas constitui uma ameaça séria para qualquer visão do mundo assente na obediência absoluta. Quem aprende, desde cedo, que a realidade pode ser narrada de outra maneira dificilmente aceitará, mais tarde, que exista apenas uma forma legítima de interpretar a vida.
Ao longo da História, os regimes autoritários compreenderam este mecanismo com uma lucidez impressionante. Nunca recearam apenas armas; recearam bibliotecas. Nunca perseguiram apenas adversários políticos; perseguiram escritores, professores, artistas, ilustradores e editores. Sabiam que uma arma pode dominar um corpo, mas uma história instala-se silenciosamente na imaginação e continua a produzir efeitos quando o livro já foi fechado. As ideias possuem uma extraordinária capacidade de sobrevivência. Entram na memória sob a forma de uma narrativa e regressam, anos mais tarde, transformadas em perguntas. E há poucas coisas mais inquietantes para qualquer poder do que um cidadão que aprendeu a fazer perguntas antes de aceitar respostas.
É precisamente por isso que os livros infantis representam um caso particularmente grave. Escondem filosofia em diálogos entre animais, disfarçam ética de aventura, introduzem política sem mencionar partidos, falam de liberdade sem recorrer à palavra e ensinam democracia sem escrever um único artigo de uma constituição. São pequenas oficinas clandestinas do pensamento, onde a imaginação........
