Trump, o Papa e o filho de Billy Graham. Opinião de José Brissos-Lino |
Billy Graham ficou conhecido como o “pastor da América”. Era uma figura discreta, sóbria fora do púlpito, no entanto foi conselheiro espiritual de presidentes durante o século XX, ao longo de décadas, mas teve sempre o cuidado de nunca se deixar partidarizar entre republicanos e democratas e muito menos comprometer do ponto de vista ideológico. As administrações da Casa Branca passavam mas nunca se confundiu com elas, fossem quais fossem.
Com a morte, aos 99 anos, daquele que era amplamente reconhecido como o maior evangelista do século XX, ocorrida a 21 de fevereiro de 2018, o país perdeu uma referência moral a toda a prova e um verdadeiro líder espiritual. Basta olhar para as paulas white desta vida que pululam hoje à volta da Sala Oval, para perceber como a água e o azeite são substâncias tão diferentes que nem sequer se misturam.
Franklin Graham, o filho, ficou como herdeiro do ministério do pai. Na sua juventude, terá vivido uma vida de drogas e excessos até se reconciliar com Deus. Porém, Franklin não chega aos calcanhares do pai. É um indivíduo sem gravitas, influenciável e incapaz de se manter imune a pressões políticas. Segue o caminho mais fácil, que é aceitar fazer parte do séquito de líderes religiosos que fazem tudo para agradar ao “grande chefe”.
Desta vez foi longe demais. Afirmou que Deus tinha levantado Donald Trump para atacar o Irão, tal como teria levantado a jovem judia Ester há séculos para salvar os judeus no império persa. Nem como analogia a ideia serve. Se Ester fez parte dum propósito de salvação dum povo, Trump colocou-se numa posição de carniceiro ao sugerir o genocídio dos iranianos, pelo que aquela leitura é ostensivamente abusiva.
A fé não deve servir para validar politicamente uma guerra. O inenarrável J.D.Vance veio depois comparar a atuação de americanos e israelitas no Irão com a dos Aliados na Segunda Guerra Mundial. Só que não foi a Inglaterra ou os EUA que iniciaram aquele conflito, mas sim a Alemanha nazi, que declarou guerra aos ingleses e o Japão que destruiu à traição a frota americana estacionada em Pearl Harbour. E quando se valida uma guerra com argumentos religiosos estamos a entrar num pântano moral, teológico e religioso.
Bem faz o Papa em denunciar aqueles que estão a deturpar a mensagem do Evangelho pois “o mundo está a ser devastado por um punhado de tiranos”, tendo criticado ainda os religiosos que usam o nome de Deus para justificar os seus objetivos militares.
Há muito que Franklin deitou borda fora o notável legado do seu pai ao desperdiçar a influência e sabedoria associadas ao sobrenome que carrega. Preferiu posicionar-se politicamente, colocando assim em causa não apenas a sua coerência como líder religioso, mas sobretudo a credibilidade do Evangelho. Daí resulta um enorme prejuízo para os cristãos em geral e o povo protestante e evangélico em particular.
A sua incoerência e enviesamento político foram estabelecidos desde logo quando, durante a primeira administração Trump, defendeu o Presidente daqueles que o acusavam de um passado dissoluto, invocando que isso se tratava da vida privada com a qual os americanos nada tinham que ver. Mas relativamente a Clinton defendeu exatamente o contrário à época, afirmando que os seus deslizes eram matéria de interesse público. Dois pesos e duas medidas. Lamentável.
O facto é que, de acordo com pesquisa do Pew Research Center, sete em cada dez americanos dizem que Donald Trump não é muito religioso ou não é nada religioso
A fatura do desvio dos líderes cristãos que se envolvem diretamente em questões de política partidária será sempre apresentada, mais cedo ou mais tarde. E é aí que todo o corpo de Cristo vai sofrer as consequências desse erro crasso. Além do mais, sempre que a Igreja cai nessa armadilha perde uma das posições mais relevantes que devia preservar, a credibilidade que lhe permitiria levantar uma voz profética para falar à sociedade.
Se aprendêssemos alguma coisa com a História e a memória dos povos não fosse tão curta, saberíamos que o início da queda acentuada da fé cristã na Europa começou depois das duas guerras mundiais, pelo facto de, no curto período entre elas, parte das igrejas se terem comprometido com o nazismo e outros movimentos políticos extremistas. Todas as escolhas que se tomam na vida trazem consequências.
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