Os judeus ortodoxos querem banir a fé cristã

Em fevereiro passado, um projeto de lei do deputado Avi Maoz, propunha uma emenda à Lei de Proteção dos Lugares Sagrados, conhecida como Lei do Muro das Lamentações, que o mesmo parlamentar já havia apresentado em 2023 e em legislaturas anteriores. Nessa altura, Moshe Gafni e Yaakov Asher, dois parlamentares judeus ultraortodoxos da direita religiosa propuseram uma norma que visava criminalizar qualquer forma de “anúncio” de Jesus, fortalecendo uma lei já existente, e que era uma emenda ao Código Penal de 1977, sobre a proibição de conversão religiosa sob pena de prisão.

A justificação é que teriam aumentado as tentativas de grupos missionários, sobretudo cristãos, de conversão religiosa em Israel, e que eram vistas como tendo o potencial de causar danos psicológicos aos fiéis, em especial aos mais vulneráveis. Caso o projeto de lei fosse aprovado, a conversão de um indivíduo, de forma pessoal ou digital, por correio ou online, seria punida com um ano de prisão e no caso dum menor a pena subiria para dois anos.

Mas após a pressão de líderes cristãos, em especial norte-americanos, o primeiro-ministro de Israel, Netanyahu opôs-se, afirmando: “Não avançaremos com nenhuma lei contra a comunidade cristã.” O Vaticano denunciou que a proposta tinha criado um clima geral preocupante e violava a liberdade de consciência, mostrando também receio de possíveis repercussões nas peregrinações à Terra Santa.

Os regulamentos promulgados sobre os locais sagrados concentram-se principalmente no Muro das Lamentações e definem atos considerados como “profanos”, incluindo “a realização de uma cerimónia religiosa que não esteja de acordo com os costumes do local e que ofenda os sentimentos dos fiéis em relação ao local”. Esses mesmos regulamentos exigem o cumprimento das orientações de um representante do ministro dos Assuntos Religiosos, e conferem-lhe uma autoridade que inclui o poder de remover um indivíduo do local por um período limitado. Há ainda petições como a anulação da decisão de proibir o uso de rolos da Torá por mulheres e a prevenção da intervenção policial.

Entretanto, a liberdade de religião e de culto, assim como a igualdade dos cidadãos perante a lei, exigem que outros judeus, mulheres e homens, possam orar no Muro mesmo que a sua postura seja mais liberal do que a ortodoxa. Além disso, o espaço no Muro deve permanecer igualmente disponível para os que desejem orar sem divisórias, sem separação de género e para as mulheres que oram segurando um rolo da Torá. Tem em conta as diversas sensibilidades religiosas como os judeus da Diáspora, que, não sendo ortodoxos, desejam orar no Muro.

Segundo dados do Índice Bienal de Religião e Estado, publicado pelo Instituto da Democracia de Israel (2024), mais da metade da população judaica de Israel visita o Muro das Lamentações pelo menos uma vez por ano, e mais de quarenta por cento dos outros visitam-no quase todos os anos. Apenas 2% dos judeus israelitas adultos nunca visitaram o Muro. A maioria das visitas sucede por motivos turísticos (60%), para oração (45%), celebrações familiares (26%) ou cerimónias de Estado e militares (12%).

Uma coisa é certa, os judeus ortodoxos, que são um perigo para a democracia em Israel, já dominam a política e querem dominar também a religião por completo. Eles cospem e agridem verbal e fisicamente os cristãos que ali se deslocam em peregrinação, e agora querem banir a fé cristã de Jerusalém. Todavia chocam com os tribunais e sobretudo com o governo, que depende dos EUA, onde a comunidade judaica tem muito peso político.

Esta situação é sinal de desconforto e conflito para os judeus messiânicos. E onde ficam então aqueles cristãos judaizantes, que incensam Israel e misturam elementos litúrgicos e doutrinários do judaísmo com o Evangelho num caldo religioso estapafúrdio mas tão ao jeito do sincretismo religioso que está na moda?

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