A Quaresma de Trump |
Para os cristãos, a Quaresma (do Latim, “quadragesima”) é um tempo especial que vai da Quarta-feira de Cinzas até ao Domingo de Páscoa. Esses cerca de quarenta dias são especialmente dedicados a uma preparação espiritual.
Do ponto de vista simbólico, o tempo quaresmal representa os quarenta dias que Jesus passou no deserto quando foi sujeito a uma tentação satânica, e que é observado como um tempo de jejum, oração, conversão e caridade para a renovação da fé. Em suma, um tempo de preparação interior que depois permita celebrar devidamente a ressurreição de Jesus.
Para os católicos comprometidos com a sua fé, este é um período tradicional de penitência, conversão e purificação, durante o qual os fiéis intensificam a oração, a caridade através de esmolas e o jejum, com destaque para a Quarta-feira de Cinzas e a Sexta-feira Santa.
Hoje, porém, a vivência cristã não se deveria focar tanto neste período específico que a tradição montou, uma vez que a prática da oração e da caridade não pode ser acantonada num determinado período do ano. Viver a fé passa por ter comunhão permanente com Deus através da oração e fazer o bem não tem data. Estas coisas fazem parte integrante do ADN cristão. Não se é discípulo de Cristo apenas durante quarenta dias. Ou se é ao longo do ano ou não se é de todo.
Por outro lado, não parece fazer sentido a prática do jejum religioso, que é uma forma de purificação do corpo e da alma, apenas marcado pelo calendário. Além de que o jejum só por si não adianta nada, do ponto de vista espiritual, se acaso é feito por obrigação ou coação e não um desejo e vontade próprios.
Além do mais, não esqueçamos que a Eucaristia ou Ceia do Senhor (conforme as tradições dos diversos segmentos do cristianismo) simboliza a morte de Jesus Cristo e, sendo um rito diário ou periódico nas celebrações comunitárias, concorre para manter viva a realidade da Páscoa ao longo de todo o ano.
Todavia, compreende-se que exista uma ênfase espiritual neste período do ano litúrgico que precede a Páscoa. O perigo está em compactar na Quaresma estas práticas e esquecê-las no resto do ano. Uma pessoa não é casada apenas no dia em que celebra o matrimónio nem se lembra do filho apenas no dia do seu aniversário, mas todos os dias.
Para quem se diz cristão, para quem manda bombardear outro país invocando uma perseguição local aos cristãos, para quem se faz fotografar em frente dum templo histórico com uma Bíblia na mão (embora de pernas para o ar…), para quem diz que, se matar um homem na 5ª avenida em Nova Iorque não vai preso, para quem invoca a fé constantemente e se faz filmar com um grupo de líderes religiosos na Sala Oval em oração por ele, parece muito estranho que a sua forma de viver a Quaresma seja iniciar uma guerra.
Neste caso, um conflito regional a milhares de quilómetros de distância, colocando em polvorosa todo o Médio Oriente, com a preciosa ajuda de Netanyahu – ou será Trump que está a ajudá-lo? – e “oferecendo” ao povo do seu país uma lista crescente de baixas de soldados americanos, entre mortos e feridos.
Uma vez que estamos em tempos de posições extremadas e polarização parva, e antes que alguém se escandalize a pensar que defendo ou minimizo de algum modo o regime criminoso de Teerão, devo dizer que considero aquela teocracia islâmica sangrenta, cruel, medieval e intolerável. Aliás, faltam-me até os qualificativos.
O meu maior desejo é que os iranianos consigam recuperar a sua dignidade em paz e liberdade e que tenham a arte de transitar para uma democracia liberal, embora esteja convencido de que terão de pagar um preço muito alto por isso.
Todavia, o ponto é que o pior Presidente que os EUA já viram na sua História se afirma cristão e na prática vive como o pior dos descrentes. E dada a sua elevada posição política no mundo precisa mesmo de ser denunciado pelos verdadeiros cristãos, por imperativo higiénico do mundo da fé.
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