Entre Gaza e o esquecimento da infância
No mundo cabem várias formas de existência, alteradas pela passagem do tempo que ora faz de tudo uma coisa, ora faz de tudo o seu exato inverso: cada ponteiro do relógio eterno da espécie que calhámos ser atira conceitos sobre o que tivemos a necessidade de definir e não conseguimos, de forma geral e natural. Do ponto de vista sociológico, um conceito parece, justamente, servir para encontrar um conforto conceptual que nos acomode ambições várias, mas, se calhar ainda mais do que isso, que nos garanta, muito, o que sabemos poder não estar garantido nunca.
A uma dessas garantias construídas a pulso, que já quase todos defendemos indiscutivelmente, nomeámos “infância”, que corresponde à viva chama aonde, depois, dizem as Noites Brancas de Fiódor Dostoiévski, o sonhador-adulto iria procurar “ao menos uma fagulha para soprá-la e, com esse fogo reanimado, aquecer o coração arrefecido”.
No entanto, o que Fiódor não antecipou, ao proferir esta irrequieta frase, era de que forma, afinal, podia o sonhador, já homem-feito, salvar-se da apatia da vida adulta quando a viva chama da infância nunca havia se acendido sequer.
O vídeo divulgado de crianças em Gaza, a brincarem ao funeral de um peluche que sorri enquanto morre,........
