Portugal outra vez do lado errado da História. Opinião de Gonçalo Ribeiro Telles |
Ainda durante o primeiro mandato de Trump era expectável que a convergência que existiu sempre entre o PS e o PSD na política externa pudesse ser posta em causa mais à frente. Não é claro se isso estará a acontecer em toda a linha, mas, com o que já se sabe do trumpismo 2.0, custa a acreditar que o centro-esquerda e até muito do centro-direita nacional vejam com bons olhos o facto de Portugal vir a estar como “observador” nesta fantochada perigosa do Conselho de Paz de Donald Trump. Contrariamente a muitos Estados-membros da União Europeia.
Num mundo que mudou inequivocamente na geopolítica, uma das questões centrais que se impõem é se interessa ao nosso país atirar para o caixote do lixo determinada matriz em nome de um posicionamento que corre o sério risco de trazer mais prejuízo do que benefício. E de vir a ser visto de forma ainda pior amanhã. A começar pelos próprios EUA.
Até que ponto é que o Governo português percebe a dimensão de tudo o que mudou e será que olha para a atual Administração americana, quer internamente, quer na esfera internacional, e a acompanha? Segue-a no seu novo papel no mundo e no que deseja para a Europa através dos partidos-satélite de extrema-direita no continente? Ignorará o contrapoder que começa a ganhar força ao trumpismo internamente nos Estados Unidos da América e toda a oposição fora de portas? Podemos ter a ideia que quisermos sobre se esse contrapoder começa a ser bem-sucedido a partir das eleições intercalares deste ano e se serão verdadeiramente transparentes, democráticas, ou se o processo autoritário já está de tal forma em estado avançado naquele país e com tanto poderio que tal se torna impossível.
Mas existem sinais que não podem ser ignorados.
Da decisão do Supremo Tribunal americano em relação às tarifas ao espetáculo no intervalo da Superbowl, que foi claramente demonstrativa, através do seu simbolismo, dos limites do controlo corporativo e institucional de Trump, até aos níveis históricos de impopularidade desta Administração em tão pouco tempo.
É difícil que as coisas corram bem para Trump enquanto Presidente no longo prazo.
Interessa-nos mesmo participar em mais uma “jogada” que não é senão a prossecução do seu combate às Nações Unidas e do desmembramento do sistema internacional como consequência? E se sim, em nome de quê? Da Aliança Atlântica e para assegurar que ele não olha para uma colonização dos Açores como faz com a Gronelândia? Já que o Governo português se tem mostrado impecavelmente neutro e ausente de tudo o que de relevante se passa nesta esfera, ou conivente na pior das formas, acreditará mesmo que a realpolitik se molda pelos mesmos parâmetros em 2026? Não seria mais útil fazermos como outros países e percebermos que na polarização e com este nível de mutações, também a Portugal interessará consolidar relações com o contrapoder moderado norte-americano e ouvir o que eles dizem? “Trump é passageiro.”
Portugal esteve do lado errado da História e de anfitriões na Cimeira das Lajes em 2003, patrocinando a invasão de um país contra o direito internacional e as Nações Unidas. As reminiscências desse erro perduram até ao dia de hoje na Europa. E agora, depois de um período de neutralidade em relação a todas as ações do pior Presidente da História dos EUA, pretendem posicionar-se ao seu lado como “observadores” num conselho que é criado para destruir essas mesmas Nações Unidas. Para voltar a estar do lado errado da História.
Será que não aprendemos nada?