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Todos querem ser Cristiano Ronaldo. Mas quantos lá chegam? – Do sonho à (dura) realidade dos números

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24.03.2026

Todos os fins de semana, em centenas de campos de futebol espalhados pelo País, repetem-se a mesma cena: crianças e jovens a correr atrás de uma bola, sonhando chegar ao topo. O desejo de ser futebolista profissional faz parte do imaginário de milhares de jovens e também dos pais. E não há nada de errado nisso. O desporto também vive de sonhos.

O problema surge quando o sonho deixa de conviver com a realidade.

Recentemente, questionei 30 pais de jovens atletas sobre se gostariam que os filhos fossem jogadores profissionais. Vinte e nove responderam que sim. O dado é revelador: mostra o entusiasmo que o futebol desperta, mas levanta uma questão essencial: estarão os pais conscientes da real probabilidade de esse sonho se concretizar?

Os números ajudam a colocar essa realidade em perspetiva.

Numa tese de mestrado intitulada “Educação e Desporto: a análise de jovens atletas dedicados ao futebol no mercado europeu”, de Tasslim Sualehe, realizada na Nova School of Business and Economics, foram analisados 100 jovens que passaram pelo menos cinco anos em academias de elite como Benfica, Sporting, Barcelona, Real Madrid, Ajax, Chelsea ou Atalanta. Tratava-se de atletas nascidos entre 1998 e 2002, avaliados já em idade adulta.

Os resultados são claros: apenas 8 atingiram o chamado “topo europeu”, jogando em clubes do top 20. Apenas 14 chegaram às três principais ligas europeias. Cerca de 80% não se afirmaram no futebol profissional.

Importa sublinhar: estes dados referem-se a jovens formados nas melhores academias da Europa. Se olharmos para a realidade nacional, o cenário torna-se ainda mais exigente.

Em Portugal, existem atualmente cerca de 167.158 jovens atletas inscritos na formação da Federação Portuguesa de Futebol. No entanto, na presente época da Liga Portugal, apenas 83 jogadores utilizados são portugueses, face a 200 estrangeiros, ou seja, apenas 29% são nacionais.

Cruzando estes dados, a probabilidade de um jovem atleta chegar à Primeira Liga é de aproximadamente 0,05%, cerca de 1 em cada 2.014 atletas.

A realidade é simples: chegar ao futebol profissional é extraordinariamente difícil. Ainda assim, o sonho persiste e muitas vezes alimentado pela imagem mediática do futebol moderno. Os jovens crescem a ver jogadores idolatrados, associados a um estilo de vida de luxo, o que reforça essa aspiração.

Mas também aqui importa clarificar: fora dos três grandes (Benfica, Sporting e FC Porto), com o SC Braga a aproximar-se, a realidade é bem diferente. O salário mínimo exigido na Primeira Liga é de 2.760 euros brutos, e na Segunda Liga de 1.610 euros. Valores dignos, mas longe do imaginário criado.

Acresce que a carreira de um futebolista é curta, marcada por instabilidade contratual e risco de lesão. Segundo dados do Sindicato dos Jogadores, cerca de 40% dos jogadores entram em falência financeira nos cinco anos após terminarem a carreira.

Importa ainda referir que esta análise se centra no futebol masculino. No futebol feminino, a realidade é ainda mais exigente, com salários mínimos a rondar os 920 euros no principal campeonato.

Perante este cenário, qual deve ser o papel dos pais? Talvez a resposta seja simples: apoiar o sonho, mas com os pés bem assentes na terra.

Para os restantes 99,95%, o futebol não é um fracasso, é uma escola de vida. Desenvolve disciplina, resiliência, trabalho em equipa e capacidade de lidar com o sucesso e o insucesso, para além de praticarem desporto, com os ganhos que daí advêm para a sua saúde.

Nem todos serão Cristiano Ronaldo. Aliás, quase ninguém será. Mas todos podem ganhar algo com o desporto — desde que se garanta que, mesmo quando o sonho não se transforma em profissão, o futuro continua bem preparado.

Os textos nesta secção refletem a opinião pessoal dos autores. Não representam a VISÃO nem espelham o seu posicionamento editorial.


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