Sai um pires de caracóis para Luís Montenegro. Opinião de Filipe Luís
A 7 de janeiro de 1994, o comandante Gomes Mota, que tinha sido mandatário das candidaturas do então Presidente da República, Mário Soares, anunciava a realização do congresso Portugal, Que Futuro?, uma iniciativa apresentada como sendo oriunda da sociedade civil, mas que, com o patrocínio não oficial do Chefe do Estado, congregava forças e personalidades à esquerda, numa vaga de fundo contra o cavaquismo. Nas imagens da reportagem da RTP, veem-se figuras como Jorge Sampaio, Helena Roseta, Ferro Rodrigues, Fernando Marques da Costa, Urbano Tavares Rodrigues, Alberto Martins (recentemente nomeado conselheiro de Estado por António José Seguro), Vasco Lourenço, Carlos Carvalhas, do PCP, ou Mário Tomé, da UDP. O Congresso, uma clara iniciativa de oposição, concebida à revelia do secretário-geral do PS, António Guterres, e contando com o apoio muito envergonhado, de serviços mínimos, quer do PS, quer do PCP, viria a decorrer a 6, 9 e 10 de maio, faz agora, precisamente, 32 anos. O País vivia ainda sob o signo da maioria absoluta do PSD de Cavaco Silva, mas já em estertor, ou, pelo menos, em fim de ciclo. No ano seguinte, o PS de Guterres venceria as eleições, fechando a década cavaquista. Mas vale a pena revisitar as primeiras palavras da apresentação de Gomes Mota: “Reina a irresponsabilidade, há incompetência e corrupção.” E mais à frente: “Os interesses de um partido sobrepõem-se aos interesses do Estado.” Não admira que, chegados a maio, confrontado com a realização do congresso Portugal, Que Futuro?, nesse fim de semana, Cavaco tenha chutado para canto: “Não vi, não estou a par… No fim de semana estive no Pulo do Lobo, a comer caracóis…” A ironia do então primeiro-ministro era desarmante: ele escolhera um ermo alentejano – onde, já agora, não existia qualquer tasca ou outra infraestrutura a vender caracóis ou imperiais… − para se aproximar........
